Amigos! Eis aqui o dos olhos de mel! O Poeta!
.MJoão Sousa

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Domingo, 31 de Agosto de 2008
FALSETE

 

Ainda clamam por mim horas carnais, e eu digo

o meu sermão de lágrimas irreal.

(Da lenha que arde mal,

o aceno das chamas é sem perigo:

só promessas de fumo, vagas cousas

inúteis, sujo o ar de formas imprecisas.)

- Coração meu, que nunca te enraízas

mas, fluido, pesas como as negras lousas!

 

Falhado que não podes estar só,

e aos que podem soas a pretextos!

Para quê desdobrar-te em magros textos,

se tu nem sequer sabes fazer dó?

 

Sete, setenta vezes sete-luas

e não estás nem perdido nem rumado!

Arredado,

em ti mesmo flutuas.

 

O corpo em alma , a renegar certeza,

pôr surdina ao instinto é só virtude?

- Pode ser mera falta de saúde

e, se é viver a medo, uma torpeza!

 

- Pecados? O pior é nem os ter!

(Ai de quem foge a se cumprir inteiro!)

A tristeza que faz ver um veleiro

na água morta de um porto, a apodrecer!

 

Terra, Céu, Mar - a Vida e tu - que nojo!

Espumas.

 

Ao vento da verdade, à flor da vaga,

qualquer nada te esmaga

e só morte ressumas!

 

 

In - "Terra ao Mar", Editorial Inquérito, 1954

 

Imagem - Fotografia de um pormenor do nº 1 da segunda série da

               revista Presença.


sinto-me:

publicado por poetaporkedeusker às 15:42
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Sexta-feira, 29 de Agosto de 2008
SEGUNDA CARTA DE LONGE

 

MANUEL RIBEIRO DE PAVIA MORREU A 19 DE MARÇO DE 1957, DIA EM QUE FEZ 47 ANOS.

 

Manuel Ribeiro de Pavia:

Esta carta é para ti.

SEGUNDA CARTA DE LONGE.

A primeira-há quantos anos!-

foi para minha mulher,

então confiante e jovem,

hoje a Mãe do meu filho mais novo

e Avó de sua filha

e um pouco minha Mãe.

 

(-Tu, Velhinha querida,

não tens ciúmes, não?)

 

Manuel de Pavia:

Em espírito e verdade,

numa hora crepuscular da minha vida,

- Não sei por que milagre

mais velho de tão novo-

foste o meu último irmão.

 

Não da carne e do sangue

mas de um sonho estelar

"romântico e pungente"

cortado de sarcasmo

ou de magoadas lágrimas

- em ti, inconfessadas,

em mim, secas ao vento.

 

O meu último irmão.

 

Partiste,

para Lá, para onde?

De longe é que te escrevo.

 

Já encontraste aí

- nesse onde estás, que estás -

minha irmã?

(Menina Branca

fugida aos trilhos da terra

antes que esta lhe desse os seus venenos)

E meu pai, o Meu Velho?

Já lhe falaste de mim?

Deste-lhe notícia do meu renovo,

dos meus pequenos triunfos?

(Discreto e nobre,

sei que não lhe disseste

a tua parte neles.)

 

Contaste-lhe da sua bisneta,

da tua infantil camarada

que te fez num retrato

com pernas de légua e meia

e que desenha Anjos muito melhor do que tu?

Descreveste-lhe esta casa

que tu honraste com a tua presença

sempre tão desejada

e requerida à tua esquiva reserva

e afinal concedida

com a alma e o coração abertos?

 

Manuel de Pavia:

 

Segunda Carta de Longe,

esta carta é para ti.

 

(Os outros que me lerem

assistem, de testemunhas,

mais ou menos presentes,

mais ou menos fiéis.)

 

Amigo!

No teu orgulho heróico,

sei que não quiseras que te chore

e, se te choro, é por mim.

 

Mesmo assim,

dorido,

mais velho de repente

e mais só,

tenho de te dizer

(e não sei se me escutas)

que não quero

e não hei-de

separar-me de ti.

 

Tenho de prometer

(é a Deus ou a quem?)

que ficarás em mim,

num ditame de esperança

ao melhor do meu ser.

(Tal como tu quiseras.

Esse, um dos teus dons:

despertar os dormentes.)

 

Tenho de te dizer

que a tua obra, VIVA,

será sempre (o meu sempre)

um aceno ao Poeta que em mim está.

Para que passe além

mais leal e mais puro,

ao serviço da Beleza e da Vida,

na alegria e na dor.

E ELE e eu - um Homem.

 

(Para o meu sempre Amigo e para nunca mais)

 

Algés, Março de 1957 às 22.31h

 

Imagem - Fotografia de Manuel Ribeiro de Pavia desenhando, em nossa casa.

 

In - "Livro de Bordo" (2º edição)

       Publicações Europa-América, 1957

 

 

 

 

 


sinto-me: poeta e pintora

publicado por poetaporkedeusker às 14:53
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Quinta-feira, 28 de Agosto de 2008
POETA

Sinto-me, às vezes, muito mais perfeito

E fujo de mim mesmo, alucinado!

As coisas balbuciantes no meu peito

Tomam gestos à luz de um Sol doirado.

 

Eu, que sou tôsco, inhabil, imperfeito,

Tenho uma fé de grande iluminado

E julgo, assim, que sou mais um eleito

Pra crear com amôr não sendo amado!

 

Vim ao Mundo na hora mysteriosa

Em que o Mundo comunga a luminosa

Dôr duma Cruz que o crava, lado a lado:

 

 

E os meus olhos, que vinham para vêr,

Alongados pra longe do meu Sêr,

Deixaram-me, ante Deus, ajoelhado!...

 

 

In - "O Encantado", Tipografia da Renascença Portuguesa,

       Porto, 1919

       Ilustrações de Eduardo Malta


sinto-me: poeta e encantada

publicado por poetaporkedeusker às 11:14
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Quarta-feira, 27 de Agosto de 2008
NOVA CANÇÃO PERDIDA

 

Falei!

Ela, defronte de mim,

pálida e séria. Julguei

que era a minha hora, enfim,

e disse como pensei.

 

Pálida e séria. Parecia

tudo o que é belo e distante.

Eu sentia

que me ouvia

para passar adiante.

 

Continuei.

Que valia,

por medo,

guardar o que já guardei

passava mais de ano e dia?

- Segredo do meu segredo?

 

A minha voz ondeava,

à sua volta,

pairava

- folha morta, folha solta

caindo, inútil.

 

Talvez...

- Ia tão longe! Hesitava...

- Uma outra história: "Era uma vez

uma estrela que faltava..."

- Mais longe ainda. E voltava,

mas não ficava de vez!

 

Sorriso pálido.- Triste?

- Sei lá! Talvez humilhada

deste amor que só insiste

com velhas palavras mortas

de bater a tantas portas.

A boca é pra ser beijada!

 

Eu dava graças à noite

que me ajudava,

e nem via

seu sorriso que magoava.

(Seu sorriso de ironia

era o dia

que apagava

as sombras do que eu dizia).

 

Continuei.

Que valia

guardar o que já guardei

passava mais de ano e dia?

 

À sua volta

a minha voz ondeava

- folha morta, folha solta

caindo, inútil.

 

Talvez...

Coração!

Mas... porque não?

- Outra história. "Era uma vez..."

 

 

In - "Ilha Deserta", Editorial Inquérito, 1954

 


sinto-me: contadora de histórias

publicado por poetaporkedeusker às 12:39
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Terça-feira, 26 de Agosto de 2008
INTERMMEZZO

Estavam todos sentados,

muito quietos e calados,

com os olhos abertos e parados

e a Voz dizia, rica e fácil: Amanhã!

 

Estavam todos já mortos,

corpos inchados e tortos

como ratos afogados nos portos.

- Ontem!... dizia, agora, a Voz piedosa e vã.

 

In- Ilha Deserta

     Editorial Inquérito, 1954

 

Imagem retirada da internet

 


sinto-me: no intervalo...

publicado por poetaporkedeusker às 13:09
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