Amigos! Eis aqui o dos olhos de mel! O Poeta!
.MJoão Sousa

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Sábado, 27 de Dezembro de 2008
ANTÓNIO DE SOUSA (1898 - 1981) - CONTINUAÇÃO

(Outros títulos para além dos já apontados "Caminhos", 1933; "Sete Luas", 1943; "O Náufrago Perfeito", 1944; "Jangada", 1946; "Livro de Bordo", 1950; "Linha de Terra", 1951; "Terra ao Mar", 1954). A consciência da pluralidade e da conflitualidade do Eu, do que há neste de "novelo de vidas", de irresolvidas contradições, é um outro sinal claro da sua integração no Modernismo. a toldar essa consciência avolumam-se na sua poesia noções de culpa e pecado, muito intimamente ligadas à sua vivência do Cristianismo, não menos dramática do que a dum Régio ou de um Torga pela circunstãncia de ter por detrás de si a adesão a uma prática religiosa definida, a protestante. Esse dramatismo, acompanhado frequentemente por um gosto pelo traço deformante, autoriza a que, a propósito da sua poesia, se possa falar de expressionismo, comum, de resto, a grande parte dos presencistas, e cujo imaginário lhes chegou mais por via das artes plásticas e do cinema do que através da literatura expressionista de língua alemã. A este respeito valeria a pena transcrever na íntegra um dos seus mais conhecidos poemas, "A Derradeira Morte do Encantado" em que também não deixa de aflorar aquela "ironia lírica" a que o próprio António de Sousa se refere num dos seus poemas:

"O senhor-dos-óculos-pretos disse: Morreu!/ Mas aquela rapariga meia-maluca/ fez-lhe uma coroa de flores/ e beijou-o devagar./ Ele estava deitado , voltado para o céu/ vivo ou morto - a sonhar.// Passou um dia enorme./ O senhor-dos-óculos-pretos

disse: Cheira mal!/ (As abelhas bem sabiam que não/ e diziam baixinho: - Dorme... - poisadas sobre o seu coração).// O senhor-dos-óculos-pretos disse: À cova!/ Mas nem os coveiros ouviram./ A chuva mansa lavou-lhe o rosto,/ e colou-se-lhe ao corpo a lua-nova,/ depois da benção do sol-posto.// (Do senhor-dos-óculos-pretos ninguém sabe./ Mas ele para sempre ali ficou/ a dormir e a sonhar, com o mesmo sorriso./ - Há tanta coisa que não cabe/ senão no Dia do Juízo!...)"

 

Bibliografia: LOPES, Óscar, "António de Sousa", in Entre Fialho e Nemésio. Estudos de Literatura Portuguesa Contemporânea II, Lisboa IN-CM, 1987, MOURÃO-FERREIRA, David, "Sobre o itinerário de António de Sousa", in Presença da "presença", Poro, Brasília Editora, 1977, NEMÉSIO, Vitorino, "Poesia e Humor", in Conhecimento da Poesia, 3ª ed., Lisboa, IN-CM, 1997.

 

DICIONÁRIO DE FERNANDO PESSOA E DO MODERNISMO PORTUGUÊS,

 

CAMINHO

 

Coordenação

 

FERNANDO CABRAL MARTINS

 

Verbete do Professor Doutor

 

Fernando J. B. Martinho

 

 

AGRADECIMENTO:

 

Estou - mesmo - sem palavras para agradecer a todos os que directa ou indirectamente, com ou sem o meu conhecimento, colaboraram na concretização deste sonho e tornaram possível

o "REGRESSO DO ENCANTADO".

Muito e muito obrigada!

 

Maria João - poeta porque Deus quer


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Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008
HÁ CENTO E DEZ ANOS NASCEU OUTRO MENINO...

ANTÓNIO DE SOUSA (25.12.1898 - 16.04.1981)

 

O longo percurso de António de Sousa inicia-se, nos finais da segunda década do século XX, sob o signo do "Saudosismo", publicando, então, o poeta "Cruzeiro de Opalas", 1918 e "O Encantado", 1919 (sob o pseudónimo de António de Portucale).O seu nome figura, depois, nas revistas que preparam o aparecimento da Presença, como Bizâncio  e Tríptico, tendo sido inclusive um dos reponsáveis pela publicação desta última. A Presença, lugar de convergência do que de mais vivo se passa na literatura portuguesa entre 1927 e 1940, e que incluirá em 1937 nas suas Edições o quarto título de António de Sousa. A "Ilha Deserta" vai ser determinante na aproximação do poeta ao espírito do Modernismo. Ele e Afonso Duarte, igualmente oriundo do Saudosismo, exemplificam bem o que é o poder de atracção da "folha de arte e crítica" de Coimbra junto dos que estão, então, empenhados na renovação do nosso lirismo. A que se refere David Mourão-Ferreira, e para que alguns presencistas deram um importante contributo, é um dos aspectos onde melhor se torna notada a modernidade da poesia de António de Sousa.

 

In Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português

 

Verbete do Professor Doutor

 

Fernando J. B. Martinho

 

(Continua)


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Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008
PIZICATO

Se me dou balanço,

danço

um baile cossaco

e saco

mêdo

às dobras do meu segrêdo.

 

No meu caminho redondo

sondo

uns abismos de tormentas

bentas.

Faço

do meu delíro um compasso.

 

Desfraldo na bujarrona

lona

dum cenário a sete-luas.

Nuas,

pedem-me bruma as cidades

a que me vou em saudades.

 

Pelas casas do meu fato

ato

lembranças do sete-estrêlo.

Sêlo

usado

colo-me a um céu desbotado.

 

Vou e venho,

lenho

no jôgo do mar azul.

Sul

ou norte,

Só certo aos rumos da morte.

 

Suo e turvo,

curvo

os meus dias paralelos.

Belos

os versos,

para além dos meus reversos!

 

Talvez me chamem

e amem

o meu sabor vagabundo

mundo

e céu que me constroem.

Mas doem...

 

 

In "O Náufrago Perfeito", Coimbra, 1944

 

 

Imagem retirada da internet

 


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Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008
POETA, 1951

Nem luar, nem estrelas. O céu denso,

noite densa e total.

(Quantas cores furtou para as não ver?)

O sal das suas lágrimas num lenço.

Sua vida banal

sabe a perder.

 

É de si que se data e que é revel.

(de tudo quanto espera tão dorido,

trai a sua verdade e nem dá conta...)

Atro, o fogo do amor, queimou-lhe a pele

e a alma nua de que vai vestido,

e só à terra o coração o aponta.

 

Um sino ao longe, à bruma doutras vidas,

a sua voz sonâmbula murmura,

onde era para ser clamor ou canto,

sete rimas perdidas.

(Dessas areias mortas de secura

nem demónio, nem santo!)

 

- A enganar o destino, faz-se duro?

(O moinho da saudade está sem mós.

Assim não vale a pena ser moleiro...)

- Gritam-lhe: Contra um muro!

gemem-lhe: Venha a nós!

e ele... enche o cinzeiro?

 

Que vos importa esse quieto desprezo,

se o anjo dos seus dias o provoca

só em sonhos, de leve?

- Deixai-o lá queimar seu fogo-preso

e ser brando ou cruel na sua toca!

Ele é de passar, breve.

 

 

In "Linha de Terra", Lisboa, 1951

 

 


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Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008
FADÁRIO

Noite na cama. Sonho. Bons sapatos velhos

para os calos da alma,

e lá vou de viagem

ao fundo da minha vida!

 

Vou ficando. - O melhor gôsto

da preguiça predestinada

que não curam médicos nem rezas.

 

Deixo pelo caminho o fato puído

das sete-luas com poeiras estelares;

que é uma vergonha andar assim, agora,

entre automóveis, aviões e engenharias!

 

(Lave-se quem cheira a passado,

antes que o varram para o lixo os demiurgos

- os do Homem Nôvo, científico e total.)

 

Trago na bagagem cumprimentos

- Ora essa; pois não!?... para tôda a gente,

respeito, consideração e frasquinhos bonitos

com cheirinhos para as namoradas.

 

Venho muito mais senhor-doutor,

para ir ao escritório, estar à espera

de quem compre certezas baratas.

 

- Muito bons dias! - Isto é o que eu trago.

(pròpriamente a viagem,

não sei como é, tenho-lhe mêdo!

Mas volto lá amanhã, se Deus quiser

e me não roubarem o passaporte...)

 

 

In "O Náufrago Perfeito", Coimbra, 1944

 

Imagem retirada da internet


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