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Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008
CANTATA DO MAU MARINHEIRO

Em Calicut, uma vez,

o grande Vasco da Gama

pôs-me a ferros no porão.

Não por pena de traição

mas por eu passar na cama

trinta dias, cada mês.

.

Se retroava a bombarda

para acossar a moirisma

- a cambulhada casmurra -

eu dedilhava a bandurra,

recatando a minha cisma

ao anjo da minha guarda.

.

Quando o Santelmo chispava,

nos tops de popa a proa,

agoiros de calmaria,

eu ao bailique pedia

o caminho de Lisboa

e o corpo da minha escrava.

.

quando a água escasseou,

a bolacha criou bicho

e o vinho já ia azedo,

eu nunca tremi de medo:

fiquei-me em santo de nicho

que a si mesmo se salvou.

.

mas se o mar fazia espuma,

o vento cuspia pragas

e a nau parecia um trambolho,

já, do sono, abria um olho,

piscava-o de manso às vagas

- Que, enfim, a vida é só uma!

.

(Sei que a morte me não quer

enquanto andar embarcado,

só pecando em pensamento.

Porém sou primo do vento

e no seu corpo salgado

o mar é minha mulher...)

.

Não fui herói como os mais,

mas o almirante do rei

acabou por perdoar.

É que eu tinha de ficar

só nos trabalhos que sei

p`ra lhe dar estes sinais!

.

(A nau voltou a Belém

e eu, felizmente, estou bem!)

.

In: JANGADA -

1946, Coimbra Editora


sinto-me: perdoada...

publicado por poetaporkedeusker às 20:35
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3 comentários:
De António Silva a 19 de Março de 2008 às 17:37
Amiga M. João
Que belo poema! Passo cá diariamente apesar de não comentar com a mesma frequência.
Continue!
1 abraço.


De poetaporkedeusker a 20 de Março de 2008 às 01:05
Meu amigo, ando envergonhada do abandono a que tenho votado este blog. Infelizmente esta semana e o início da outra vão continar a deixar-me muito pouco tempo para vir publicar e eu, no poetaporkedeusker tenho o compromisso de um poema por dia, e neste não consegui ainda seguir a mesma linha. De qualquer forma ando a criar mais de um soneto por dia e, se conseguisse postar tudo, passariam a ser quatro ou cinco por dia... talvez no final da próxima semana.
Abraço.


De poetaporkedeusker a 20 de Março de 2008 às 01:05
Meu amigo, ando envergonhada do abandono a que tenho votado este blog. Infelizmente esta semana e o início da outra vão continar a deixar-me muito pouco tempo para vir publicar e eu, no poetaporkedeusker tenho o compromisso de um poema por dia, e neste não consegui ainda seguir a mesma linha. De qualquer forma ando a criar mais de um soneto por dia e, se conseguisse postar tudo, passariam a ser quatro ou cinco por dia... talvez no final da próxima semana.
Abraço.


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