Amigos! Eis aqui o dos olhos de mel! O Poeta!
.MJoão Sousa

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Sexta-feira, 5 de Março de 2010
POEMA INTRODUTÓRIO

 

Com medo de me perder,

até aqui chamei-me ESTAR;

agora vou começar

e dão-me o nome de SER.

 

Pois que de bem com o mundo,

aqui lhe deixo, em bom uso,

meu fato lunar confuso

e o meu sonho mais profundo.

 

 

IMAGEM RETIRADA DA INTERNET

 

 

 


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Quinta-feira, 18 de Fevereiro de 2010
GRANDE MERGULHO

 

No fundo do mar,

no fundo, no fundo

dum mar que não é

nem do céu

nem do mundo,

nas velhas areias

entre algas em feixes,

conchinhas, moluscos,

luzentes escamas

de meigas sereias

e rápidas flamas

do arco-íris dos peixes,

a chave lá está.

 

Quem desce a buscá-la?

Cem anos, mil anos,

mil anos e um dia,

alguém que tecia

a mística rede

com sonhos humanos,

naufrágios e sede,

martírios e crimes,

geométricos gritos

e poemas sublimes,

bordões de viola

e nós de infinitos,

num pronto apanhou-a!

 

Se chega cá acima;

ao Cabo ou ao Polo,

ao Havre ou ao Goa

ou mesmo a Lisboa!...

 

Mas, longa, a subida,

mais longa, demora

a conta sabida:

A hora por hora

é sempre uma vida.

 

 

In "Sete Luas", Lisboa, 1954

 

Imagem retirada da internet

 

 

 


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Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010
VÔO NOCTURNO

 

LUA!

toda branca, a tremer no céu profundo

inquieta e nua

ao vento zoado dos confins do mundo!

 

Violino que só tem o som agudo,

o teu luar é médium, arrepia.

Nele vem tudo a mim e eu sou em tudo

como no instante imenso da agonia.

 

Oh noite-plena das saudades mortas

e pávidos espantos!

- Sou os abraços para lá das portas

e os mendigos gemendo pelos cantos.

 

Sou os gordos senhores a ruminar4,

junto do lume, astutas ladroeiras

e as almas penadas a bailar

sobre as pedras das eiras.

 

Sou de jóias, bordéis, cinemas, automóveis,

egoísmos e histéricas vaidades

e velhas torres imóveis

que falaram de Deus noutras idades.

 

Impo de charlatães, batendo a mão no peito,

que dão a quem der mais

velhas mézinhas de seguro efeito

contra pecados simples e mortais.

 

Nasço com esses que hão-de herdar a terra

onde só temos, de certeza, a cova.

Sou os que aprendem - vão partir prá guerra!-

uma cantiga nova.

 

Famintos cães uivando

nos descampados,

sou os que traçam versos, delirando,

cheios de frio, inúteis, desgraçados.

 

Queimo o incenso das preces que não9 passa

as nuvens do segredo

e sou os que andam à divina graça

no meu degredo.

 

In "Sete Luas", 2ª edição, Lisboa 1954

 

Imagem retirada da internet

 

 

 

Este blog está a ser publicado por Maria João Brito de Sousa

que, a partir de hoje, estará também em http://www.avspe.eti.br/

 

http://www.avspe.eti.br/biografia2010/MariaJoaoBritodeSousa.htm


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Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010
LENDA DO PATO BRAVO

 

Pato bravo.jpg

 

Voa no céu

- tão alto! -

um pato bravo

e a onda do seu grito

rola no sangue vivo do poente:

 

"Suam-me versos estas noites velhas

que me descem dos olhos,

lá do fundo,

onde é, talvez, o coração que vê.

 

Digo ao que vem á frente dessas horas.

- aqui viver ou morrer,

mas devagar!

E grito o meu orgulho a sete luas mortas...

 

Depois, gran-duque e senhor

e rei de um reino de pedir às portas,

choro

e esmolo o pão de vida

aos que de vida  vão fartos.

 

E peço o amor a algum beijo

gasto, cansado, caído,

que ia a destino e me bateu na boca.

 

- Há por aí farrapo pra vender?

 

Sou o dos olhos de mel...

Sou o menino dos luares doridos

que esteve nove meses de joelhos

a rezar o seu medo de nascer."

 

Voa no céu,

tão alto,

um pato bravo,

agora, no silêncio

do deserto e das almas que se fecham.

 

O vento servo dos deuses,

certeiro o gume da faca,

mete-lhe o vôo entre fatias de ar:

um "hors d`oeuvre" de apetite

para os papões demiurgos

dos caminhos para SER.

 

- Pronto! Passou!

Prossiga esse banquete!

 

O guisado de sóis vem para a mesa.

Continua o roer da Eternidade.

 

António de Sousa

 

 

In "Sete Luas",  Editorial Inquérito

Lisboa, 1954.


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Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010
ESCONJURO

BEM sei!

- É só estender a mão,

dizer amén, e sou rei!

[tenho talento que sobre

e um sangue no coração

que não é azul mas é nobre.]

 

Dizer amén

e acudir na hora H.

[a um homem não fica bem

andar de cá para lá,

e a gente vale o que tem

pelo que dá.]

 

Tenho talento!

Quando penso é sempre em verso:

sou um poço de sentimento!

Mas ficou-me desde o berço

este receio do incerto...

Herói, sim! mas encoberto...

 

- E o céu?

- O céu que eu entendo

[e quem diabo mo deu?]

são uns lábios de mulher

e uma mentira qualquer

que me dão e a que me rendo.

 

Dividido,

porque procuro um sentido

e pergunto a toda a gente:

- É a vida que me mente

ou eu que estou impedido

de ser verdadeiramente?

 

Na perdição que me guia,

inquieta, vaga, distante,

a verde luz da alegria

vem e vai... passa adiante...

beija-me os olhos, às vezes,

para lá dos meus revezes.

 

E ainda rezo

e tateio como um cego,

aquela noite sem nome

- noite que temo e que nego! -

do medo que me tem preso.

E espero.

 

Espero,

não a riqueza do mundo,

nem a glória, que não quero,

nem essa voz do Profundo

que é sonho e arte e beleza!

Eu espero outra certeza:

encontrar-me! SER, enfim,

aquilo para que vim

a este mundo, senhores!

Ser eu sem esta saudade,

sem incertezas nem dores:

ter-me todo em liberdade!

 

 

In "Sete Luas", 1954


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