Amigos! Eis aqui o dos olhos de mel! O Poeta!
.MJoão Sousa

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Domingo, 23 de Novembro de 2008
FADO CORRIDO

Quando me leram a sina

na palma da minha mão,

inda a vida era menina

dentro do meu coração.

 

"El señor tiene dos vidas"

- Melhor nenhuma tivera!

Se uma são horas perdidas

e a outra é estar sempre à espera.

 

Todos sabem onde está

a chave dos seus caminhos;

só eu, de cá para lá,

jogo aos meus quatro cantinhos!

 

Quando o amor por mim passou,

para mal dos meus pecados,

ou mentiu ou se enganou,

e deu-me beijos trocados.

 

"Quem canta seu mal espanta!"

disse quem fala de cor:

- O que a minha boca canta

anda sempre ao meu redor!

 

Pus-me a rir pra quem passava,

com pena de lhe ter pena,

mas a mim não me enganava

o juiz que me condena.

 

"El señor tiene dos vidas!"

- E quem lhes sabe o segredo?

Vinham ambas já vividas

ou eu sou feito de medo?

 

 

In "Ilha Deserta", 2ª edição, 1954

 

Imagem retirada da internet

 

 

 


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Quarta-feira, 19 de Novembro de 2008
A VELHA SALA

A velha sala sonolenta

cheira a bordado, a missanga,

a flores mortas, a tristeza, a pó.

Cheira a silêncio inútil

e a amareladas pontas de cigarros

só fumados até meio.

 

A traça roi, nas estantes,

livros que já ninguém lê,

livros que ninguém leu até ao fim.

Do piano, se o tocassem,

a música saíria com bolor!

 

Da velha sala sonolenta

vem qualquer coisa que dá pena

e vontade de fugir!

 

Oh, a minha alma cheia de saudades!

 

In "Ilha Deserta" (2ª edição), Lisboa, 1954

 

Imagem retirada da internet - V. Van Gogh


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publicado por poetaporkedeusker às 22:45
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Segunda-feira, 17 de Novembro de 2008
DESCAMINHO

Tinham-me dado um segredo.

Sabê-lo, sem mais ninguém,

era sofrer de alegria!

Amava-o! Tinha-lhe medo!...

Mas guardá-lo muito bem

era tudo o que eu valia.

 

Passei por terras estranhas,

não sei que penas de exílio

por amor dele. Depois,

que desoladas montanhas!

Que desertos sem auxílio!

Mas, deixá-lo! Éramos dois!

 

(Triste mas belo, o caminho!)

Certo dia, não sei quando

- se o lembro, mais se perdeu...-

chamaste por mim, baixinho.

Foste minha! Fui-me dando

até ficar todo teu!

 

Agora vivo a teus pés.

Não vejo mais nem decoro

o meu segredo esquecido.

Sei apenas como és!

E chamo, desdenho e choro

o meu caminho perdido!

 

 

In "Ilha Deserta", Lisboa, 1954

 

Imagem retirada da internet

 

 


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publicado por poetaporkedeusker às 16:29
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Quarta-feira, 27 de Agosto de 2008
NOVA CANÇÃO PERDIDA

 

Falei!

Ela, defronte de mim,

pálida e séria. Julguei

que era a minha hora, enfim,

e disse como pensei.

 

Pálida e séria. Parecia

tudo o que é belo e distante.

Eu sentia

que me ouvia

para passar adiante.

 

Continuei.

Que valia,

por medo,

guardar o que já guardei

passava mais de ano e dia?

- Segredo do meu segredo?

 

A minha voz ondeava,

à sua volta,

pairava

- folha morta, folha solta

caindo, inútil.

 

Talvez...

- Ia tão longe! Hesitava...

- Uma outra história: "Era uma vez

uma estrela que faltava..."

- Mais longe ainda. E voltava,

mas não ficava de vez!

 

Sorriso pálido.- Triste?

- Sei lá! Talvez humilhada

deste amor que só insiste

com velhas palavras mortas

de bater a tantas portas.

A boca é pra ser beijada!

 

Eu dava graças à noite

que me ajudava,

e nem via

seu sorriso que magoava.

(Seu sorriso de ironia

era o dia

que apagava

as sombras do que eu dizia).

 

Continuei.

Que valia

guardar o que já guardei

passava mais de ano e dia?

 

À sua volta

a minha voz ondeava

- folha morta, folha solta

caindo, inútil.

 

Talvez...

Coração!

Mas... porque não?

- Outra história. "Era uma vez..."

 

 

In - "Ilha Deserta", Editorial Inquérito, 1954

 


sinto-me: contadora de histórias

publicado por poetaporkedeusker às 12:39
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Terça-feira, 26 de Agosto de 2008
INTERMMEZZO

Estavam todos sentados,

muito quietos e calados,

com os olhos abertos e parados

e a Voz dizia, rica e fácil: Amanhã!

 

Estavam todos já mortos,

corpos inchados e tortos

como ratos afogados nos portos.

- Ontem!... dizia, agora, a Voz piedosa e vã.

 

In- Ilha Deserta

     Editorial Inquérito, 1954

 

Imagem retirada da internet

 


sinto-me: no intervalo...

publicado por poetaporkedeusker às 13:09
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