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.MJoão Sousa

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Sábado, 4 de Outubro de 2008
CRÍTICA LITERÁRIA (conclusão)

 Um enigma pode ter beleza em si próprio, independentemente da sua decifração. É o caso de certos versos de Fernando Pessoa:

 

Sol nulo dos dias vãos,

Cheio de lida e de calma,

Aquece ao menos as mãos

A quem não entras na alma!

 

É dispensável decifrá-los para lhes sentirmos a beleza. em António de Sousa também se encontram muitos versos em que a beleza basta só por si. É o caso de poesias como esta:

 

A primeira infância

quere-se com seus pais

e a minha ignorância

é saber demais.

 

Há o luar fundo,

mas passei no vau

e desci ao mundo

sem pedra nem pau.

 

-Menino, donde é,

assim tão sózinho?

-Vou pelo meu pé

para o meu caminho.

 

e de todas aquelas em que conseguiu libertar, sem constrangimentos, a personalidade sequiosa de expressão. Com efeito, não obstante essa espécie de pudor que a metáfora protege, antepondo-se a qualquer a qualquer tradução desprovida de emoções, ansiedades ou desejos, sente-se que antónio de Sousa aspiraria a um abandono que não ousa. Tolhe-o não sei que receio de se banalizar, não sei que pudor de se dar tal qual. É muito possível que, de facto, o prestígio da sua poesia esteja mais na forma do que no "fundo", se me é permitido estabelecer tão escolástica distinção. Pelo menos o próprio António de sousa deixa-nos pensar assim. quando, por exemplo, diz:

 

Noite na cama.Sonho. Bons sapatos velhos

para os calos da alma

e lá vou eu, de viagem,

ao fundo da minha vida!

 

somos levados a pensar que, de facto, é a forma, não o fundo, que se reveste, aqui, de uma tão forte originalidade. Não é na essência que está, de facto, a originalidade mas na expressão, na forma. Tudo o que nela é estranho, singular, invulgar, difícil, belo realmente, é essa espécie de tessitura de sonho em que o poeta se oculta. A estranheza de "O Náufrago Perfeito2 começa no título. Não haverá uma certa desproporção entre entre a sua originalidade, quiçá forçada, e o sentido que, de facto, encerra? Perfeito náufrago é aquele que sossobra integralmente: um Robinson da vida. António de Sousa não se contenta em ser "perfeito náufrago", expressão em que cria, ao mesmo tempo, uma metáfora e o seu significado lógico. Não, António de Sousa quis ser o "O Náufrago Perfeito", aquele que entre os náufragos é de facto o náufrago completo, integral, excepcional. Bem pode ser que não tenha sido essa a intenção do poeta, mas é nesta confusão, nesta ambiguidade que se traduz, afinal, tudo o que temos tentado dizer. na poesia de António de Sousa o fundo é fácil e a forma complicada. António de sousa é um exemplo do poeta refugiado na metáfora para se enriquecer poeticamente.

Mas será assim? Não haverá na personalidade do autor de "Ilha Deserta" algo de mais profundamente original do que as metáforas com que reveste a sua poesia? Eis o que se não chega a ver claramente na sua obra. Nem mesmo neste livro, quiçá o mais o mais original, o mais pessoal de quantos tem publicado.

É muito possível que a expressão própria de António de Sousa esteja nessa espécie de humorismo metafórico que aflora em algumas das suas composições e rompe com o preciosismo metafórico que as domina. O "Náufrago Perfeito" não é um livro vulgar. António de sousa é um poeta inconfundível. Ficamos esperando, todavia, que se classifique mais. De livro para livro acentua-se mais a sua personalidade. O perfeito naufrágio é um passo em frente.

 

Artigo de João Gaspar Simões, in "Diário de Lisbôa", 21.2.1945


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Terça-feira, 30 de Setembro de 2008
CRÍTICA LITERÁRIA (continuação)

Esta poesia define bem a maneira poética de António de Sousa. Não há nela expressão directa do sentimento ou da intenção a que alude. Sôbre uma emoção - a emoção do envelhecer - construiu ele esta metáfora, aparentemente inexistente graças à integração imediata na sua expressão transposta ou alusiva. Intelectual, dizia, de um intelectualismo que força as emoções a serem consciência antes de serem emoções, o poeta de "O Náufrago Perfeito" tinha de pertencer à linhagem dos nossos poetas metafóricos. Na verdade até em Camões é difícil, por vezes, encontrar a analogia entre o poema e o seu significado lógico. Há versos seus que são enigmas. Porém não carecem de ser decifrados graças à beleza que em si mesmo possuem. Para sentirmos a majestade da Esfinge, não precisamos de conhecer o segredo que ela esconde.  (continua)

 

In - "Diário de Lisbôa" , 21.2.1945  (artigo de João Gaspar Simões)


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Segunda-feira, 29 de Setembro de 2008
CRÍTICA LITERÁRIA (João Gaspar Simões)

 

NO DOMÍNIO DA METÁFORA

 

Se volvermos olhos à nossa poesia clássica, vemos, por um lado, uma corrente a que poderemos chamar "imagista", e nela se contam um Bernardim, um Rodrigues Lobo ou um Gonzaga, e outra a que poderemos camar "metafórica", onde Camões, Sá de Miranda ou Bocage estão à vontade. salvo o que há de arbitrário em classificações deste quilate, o certo é que estas duas tendências se perpetuam ao longo da nossa história literária. Correspondem a duas formas de mentalidade: uma instintivamente lírica, outra lírica consciente ou semi-conscientemente. Nesta última se integram muitos dos chamados poetas "modernistas" ou modernos.

Efectivamente, a nossa poesia moderna ou "modernista" pôs em causa a metáfora como forma de expressão poética corrente. A poesia de Fernando Pessoa, mesmo quando é aparentemente directa, assenta sobre a metáfora. nela a expressão não é espontânea. Nela não é nua e directa a "idea", chamemos-lhe assim. Dir-se-ia que, para os poetas modernos, a poesia é condensação mais ou menos consciente, em formas líricas alusivas a emoções, sensações ou ideias que, em si mesmas, não podem ser poéticas.

Lendo os versos do último livro de António de Sousa, "O Náufrago Perfeito" (Atlântida, Coimbra), apresentou-se-me em toda a sua complexidade, o problema dessa poesia metafórica que é, com raras excepções, a dos poetas que continuam a tradição "modernista". O autor de "Ilha Deserta" é, antes de mais nada, um intelectual. Poeta, verdadeiro Poeta, na capacidade de se integrar na postura do homem que apenas recolhe da vida o mel das emoções, António de Sousa não pode, não sabe ou não quer vir até ao parapeito da Poesia na inocência das imagens que se lhe precipitam do fundo da sua natureza emocional e, assim, cada uma das suas composições é uma espécie de metáfora a que se amputaram os pontos de relacionação.

 

...olho os cabelos brancos

dêste dia de outono

- a chuva sossegada

 

e ainda ontem brinquei horas e horas

com o sol e com a lua!

 

Quem roubou essas pedras do meu jôgo

e, de repente, nos envelheceu

- a mim

e ao céu?

 

(continua)

 

In - Diário de Lisbôa, 21.2.1945


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