Amigos! Eis aqui o dos olhos de mel! O Poeta!
.MJoão Sousa

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Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008
REFLUXO

Esta vaga magia de ser triste

é o azeite que ponho na candeia,

o fermento do pão da minha ceia,

meu sorriso que dói mas não desiste.

 

Tantos me julgam fáci na alegria

e eu, de mim, sou a noite de um segredo!

O meu amor é a tremer de medo

desse Amor que, decerto, me sabia.

 

Amo a graça longínqua das estrelas,

o fluido fantasmático da bruma

e o longo adeus marítimo das velas.

 

Onda que ao largo se perdeu da praia,

vou-me disperso em lágrimas, espuma,

e talvez neste enrêdo vos distraia...

 

 

In - "Linha de Terra", Editorial Inquérito, 1951

 

Desenho de Manuel Ribeiro de Pavia

 

NOTA - Este é o meu preferido, de todos os sonetos de           

             António de Sousa e também o que melhor o de-

              fine, na minha opinião.

 

 

 


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publicado por poetaporkedeusker às 23:56
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Sábado, 18 de Outubro de 2008
NINGUÉM

Quando o caminho sobe, eu adormeço

sôbre o cansaço de não ter andado:

ao luar-de-mim-mesmo me anoiteço,

com este amar de coração parado.

 

Um fim-de-raça foi o meu comêço

e, sem naufrágios, pelo mar coalhado

destes dias que vivo e não mereço,

o meu futuro é feito de passado...

 

Sonho que sonhe fala-me de algêmas

e gastei com as tintas duns poemas

esta côrdo meu sangue já sem côr!

 

Inocente ou culpado (à Sua imagem!),

eu nem sei porque teimo na viagem

duma vida vivida por favor.

 

 

In - "O Náufrago Perfeito" , Coimbra, 1944

 

Desenho de Manuel Ribeiro de Pavia

 

Imagem retirada da internet


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publicado por poetaporkedeusker às 14:06
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Sábado, 27 de Setembro de 2008
À LA MINUTE

 

CORAÇÃO sem fronteiras,

eu não escolho:

amo!

 

(Eu nasci na Calçada das Virtudes,

e a Charitas, diz S. Paulo,

é delas a maior.)

 

Mas em dia em que esteja inchado das vaidades

ou de mau fígado,

fecho o velho breviário de humildades

e (se posso)

parto a cara ou a alma ao primeiro sujeito

(até posso ser eu...)

que me falte ao respeito!

 

Pobre António!

- O meu amor é um jeito de preguiças,

ou esta fúria de cobarde-valente

e esta proa...

serão só traças do Demónio?

 

In - "Terra ao Mar", Editorial Inquérito, 1954

 

Imagem - Ilustração da capa - Gravura de Manuel Ribeiro de Pavia

 

 


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Quinta-feira, 25 de Setembro de 2008
ENCONTRO

Marinheiro dum céu que me perdera,

com sete luas ao luar de Outono,

dos meus sonhos nenhum te concebera

nem te cantava a minha voz sem dono.

 

Adormeci. As tuas mãos de cera

desfolharam carícias no meu sono

e Deus, que da minh`alma se esquecera,

de teus beijos floriu este abandono.

 

Adormeci. À hora da partida,

à luz que os fortes bebem como vinho,

adormeci, para fugir à vida.

 

Vieste. Sei agora porque sou:

era sonhar - não ser - o meu caminho.

Fugi à vida - a vida começou.

 

In - "Livro de Bordo" , 2ª edição

       Publicações Europa-América, 1957

 

Imagem - Ilustração de Manuel Ribeiro de Pavia

 


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Sexta-feira, 29 de Agosto de 2008
SEGUNDA CARTA DE LONGE

 

MANUEL RIBEIRO DE PAVIA MORREU A 19 DE MARÇO DE 1957, DIA EM QUE FEZ 47 ANOS.

 

Manuel Ribeiro de Pavia:

Esta carta é para ti.

SEGUNDA CARTA DE LONGE.

A primeira-há quantos anos!-

foi para minha mulher,

então confiante e jovem,

hoje a Mãe do meu filho mais novo

e Avó de sua filha

e um pouco minha Mãe.

 

(-Tu, Velhinha querida,

não tens ciúmes, não?)

 

Manuel de Pavia:

Em espírito e verdade,

numa hora crepuscular da minha vida,

- Não sei por que milagre

mais velho de tão novo-

foste o meu último irmão.

 

Não da carne e do sangue

mas de um sonho estelar

"romântico e pungente"

cortado de sarcasmo

ou de magoadas lágrimas

- em ti, inconfessadas,

em mim, secas ao vento.

 

O meu último irmão.

 

Partiste,

para Lá, para onde?

De longe é que te escrevo.

 

Já encontraste aí

- nesse onde estás, que estás -

minha irmã?

(Menina Branca

fugida aos trilhos da terra

antes que esta lhe desse os seus venenos)

E meu pai, o Meu Velho?

Já lhe falaste de mim?

Deste-lhe notícia do meu renovo,

dos meus pequenos triunfos?

(Discreto e nobre,

sei que não lhe disseste

a tua parte neles.)

 

Contaste-lhe da sua bisneta,

da tua infantil camarada

que te fez num retrato

com pernas de légua e meia

e que desenha Anjos muito melhor do que tu?

Descreveste-lhe esta casa

que tu honraste com a tua presença

sempre tão desejada

e requerida à tua esquiva reserva

e afinal concedida

com a alma e o coração abertos?

 

Manuel de Pavia:

 

Segunda Carta de Longe,

esta carta é para ti.

 

(Os outros que me lerem

assistem, de testemunhas,

mais ou menos presentes,

mais ou menos fiéis.)

 

Amigo!

No teu orgulho heróico,

sei que não quiseras que te chore

e, se te choro, é por mim.

 

Mesmo assim,

dorido,

mais velho de repente

e mais só,

tenho de te dizer

(e não sei se me escutas)

que não quero

e não hei-de

separar-me de ti.

 

Tenho de prometer

(é a Deus ou a quem?)

que ficarás em mim,

num ditame de esperança

ao melhor do meu ser.

(Tal como tu quiseras.

Esse, um dos teus dons:

despertar os dormentes.)

 

Tenho de te dizer

que a tua obra, VIVA,

será sempre (o meu sempre)

um aceno ao Poeta que em mim está.

Para que passe além

mais leal e mais puro,

ao serviço da Beleza e da Vida,

na alegria e na dor.

E ELE e eu - um Homem.

 

(Para o meu sempre Amigo e para nunca mais)

 

Algés, Março de 1957 às 22.31h

 

Imagem - Fotografia de Manuel Ribeiro de Pavia desenhando, em nossa casa.

 

In - "Livro de Bordo" (2º edição)

       Publicações Europa-América, 1957

 

 

 

 

 


sinto-me: poeta e pintora

publicado por poetaporkedeusker às 14:53
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