Amigos! Eis aqui o dos olhos de mel! O Poeta!
.MJoão Sousa

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Quinta-feira, 18 de Fevereiro de 2010
GRANDE MERGULHO

 

No fundo do mar,

no fundo, no fundo

dum mar que não é

nem do céu

nem do mundo,

nas velhas areias

entre algas em feixes,

conchinhas, moluscos,

luzentes escamas

de meigas sereias

e rápidas flamas

do arco-íris dos peixes,

a chave lá está.

 

Quem desce a buscá-la?

Cem anos, mil anos,

mil anos e um dia,

alguém que tecia

a mística rede

com sonhos humanos,

naufrágios e sede,

martírios e crimes,

geométricos gritos

e poemas sublimes,

bordões de viola

e nós de infinitos,

num pronto apanhou-a!

 

Se chega cá acima;

ao Cabo ou ao Polo,

ao Havre ou ao Goa

ou mesmo a Lisboa!...

 

Mas, longa, a subida,

mais longa, demora

a conta sabida:

A hora por hora

é sempre uma vida.

 

 

In "Sete Luas", Lisboa, 1954

 

Imagem retirada da internet

 

 

 


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publicado por poetaporkedeusker às 14:07
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Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010
VÔO NOCTURNO

 

LUA!

toda branca, a tremer no céu profundo

inquieta e nua

ao vento zoado dos confins do mundo!

 

Violino que só tem o som agudo,

o teu luar é médium, arrepia.

Nele vem tudo a mim e eu sou em tudo

como no instante imenso da agonia.

 

Oh noite-plena das saudades mortas

e pávidos espantos!

- Sou os abraços para lá das portas

e os mendigos gemendo pelos cantos.

 

Sou os gordos senhores a ruminar4,

junto do lume, astutas ladroeiras

e as almas penadas a bailar

sobre as pedras das eiras.

 

Sou de jóias, bordéis, cinemas, automóveis,

egoísmos e histéricas vaidades

e velhas torres imóveis

que falaram de Deus noutras idades.

 

Impo de charlatães, batendo a mão no peito,

que dão a quem der mais

velhas mézinhas de seguro efeito

contra pecados simples e mortais.

 

Nasço com esses que hão-de herdar a terra

onde só temos, de certeza, a cova.

Sou os que aprendem - vão partir prá guerra!-

uma cantiga nova.

 

Famintos cães uivando

nos descampados,

sou os que traçam versos, delirando,

cheios de frio, inúteis, desgraçados.

 

Queimo o incenso das preces que não9 passa

as nuvens do segredo

e sou os que andam à divina graça

no meu degredo.

 

In "Sete Luas", 2ª edição, Lisboa 1954

 

Imagem retirada da internet

 

 

 

Este blog está a ser publicado por Maria João Brito de Sousa

que, a partir de hoje, estará também em http://www.avspe.eti.br/

 

http://www.avspe.eti.br/biografia2010/MariaJoaoBritodeSousa.htm


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publicado por poetaporkedeusker às 15:49
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Terça-feira, 28 de Outubro de 2008
...

 

Confesso. Confesso que acordei à uma da tarde com um telefonema que gostaria de nunca ter recebido.

Confesso que estou lenta e toda "partida" e que quase deseperei enquanto tratava a minha "gente". Confesso que deixei escapar o Spirit e que fiquei inevitavelmente esgatanhada no, ainda mais invitável, confronto que se deu com os outros 13. Confesso que tenho uma dor de cabeça tão monumental que quase me parece desumana. Confesso que fiquei com vontade de mandar o 2008 às urtigas quando ele voltou a "empancar", como vem acontecendo há mais de 48 horas. Confesso que estou farta de fazer actualizações manuais e os "scan the whole computer" que me desesperam durante exactamente 1 hora, 8 minutos e 53 segundos. Confesso que estou farta, fartíssima, de não ter acesso à caixa de correio, de não conseguir abrir páginas... confesso que, hoje, mal me reconheço.  E porque este desespero todo - ou raiva, ou desistência, ou tudo à mistura... - não são, graças a Deus, comuns em mim, nasceu-me outra Maria-Sem-Camisa, essa que é 99,9% de mim e que me veio "abanar" as ideias. É que este estado de espírito não leva a coisa nenhuma e ela resolveu brindar, com a sua gargalhada, o 0,01% da minha pessoa que, hoje, decidiu comandar-me.

 

MARIA-SEM-CAMISA XV

 

Maria-Sem-Camisa nunca trai!

Pode, às vezes zangar-se, olhar de lado,

Mas guardará consigo o que contado

Lhe pode dar razão. Mas cala e sai.

 

Maria-Sem-Camisa está zangada?

Foi porque o Mundo quis manipular

A forma de "se ser" e de "se estar"...

O resto não a toca quase nada!

 

Maria-Sem-Camisa, olha esse gato!

Perpetuou tamanho desacato

Que a casa ficou toda em desalinho!

 

Mas Maria desata à gargalhada...

A casa, mesmo assim desarrumada,

É o seu universo, é o seu ninho...

 

 

"Ashes" - Edward Munsch

Imagem retirada da internet

 

 

 

 


sinto-me: Sem casa? Nunca!

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Quinta-feira, 23 de Outubro de 2008
EVA

Quando jurei viver pelo teu nome,

deslumbrado, julguei que renascia

na infância do mundo, um certo dia,

antes do mal, das lágrimas,da fome.

 

E fiz de ti, amada que não amas,

com pecados mortais, o Paraízo!

Escravo do teu Dia-de-Juízo

como um farrapo que se atira às chamas!

 

Por ti andei na sombra da loucura

- sombra de amor, de raiva, de ciúme -

meu demónio, meu deus, minha tortura!

 

Se ao menos fôsses minha!... - Nos meus braços,

feroz, - tão longe! - a tua voz de lume

é só duns céus exóticos e baços!...

 

 

In - "Caminhos" - Composto e impresso na tipografia da "Seara Nova"

                           Lisboa, 1933

                           Capa de Diogo de Macedo

      


sinto-me:

publicado por poetaporkedeusker às 13:05
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