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antoniodesousa

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Amigos! Eis aqui o dos olhos de mel! O Poeta!

.MJoão Sousa

Cria o teu cartão de visita

CANTATA DO MAU MARINHEIRO


Maria João Brito de Sousa

29.02.08

Em Calicut, uma vez,

o grande Vasco da Gama

pôs-me a ferros no porão.

Não por pena de traição

mas por eu passar na cama

trinta dias, cada mês.

.

Se retroava a bombarda

para acossar a moirisma

- a cambulhada casmurra -

eu dedilhava a bandurra,

recatando a minha cisma

ao anjo da minha guarda.

.

Quando o Santelmo chispava,

nos tops de popa a proa,

agoiros de calmaria,

eu ao bailique pedia

o caminho de Lisboa

e o corpo da minha escrava.

.

quando a água escasseou,

a bolacha criou bicho

e o vinho já ia azedo,

eu nunca tremi de medo:

fiquei-me em santo de nicho

que a si mesmo se salvou.

.

mas se o mar fazia espuma,

o vento cuspia pragas

e a nau parecia um trambolho,

já, do sono, abria um olho,

piscava-o de manso às vagas

- Que, enfim, a vida é só uma!

.

(Sei que a morte me não quer

enquanto andar embarcado,

só pecando em pensamento.

Porém sou primo do vento

e no seu corpo salgado

o mar é minha mulher...)

.

Não fui herói como os mais,

mas o almirante do rei

acabou por perdoar.

É que eu tinha de ficar

só nos trabalhos que sei

p`ra lhe dar estes sinais!

.

(A nau voltou a Belém

e eu, felizmente, estou bem!)

.

In: JANGADA -

1946, Coimbra Editora

VIAGEM


Maria João Brito de Sousa

26.02.08

Era o fim!... Mas levava a descoberta,

para o lado que a vida nunca diz,

de uma ironia lírica e desperta.

E quem faz descobertas é feliz.

.

Passara sobre a hora mais deserta

do silêncio, da morte, do país,

onde a luz ou a sombra é recta e certa

e parara ante a face do Juíz.

.

- Pecados? Bem ou mal? - Tudo era um jogo...

E o seu riso silvava contra o fogo

lá desse olhar que fere como as lanças!

.

Mas quando a voz ditou, fria e de fogo:

- A teus passos andados te desterro!

de joelhos, chorou como as crianças.

.

In - SETE LUAS - 1ª edição - 1943

       Edição de Autor, Tipografia Atlântida, Coimbra

TORRE DA MÁ HORA


Maria João Brito de Sousa

25.02.08

Não, meu menino! não é aqui!

.

Tu vens ao jogo da vida

com essa avidez perfeita

como um bambino a mamar:

- que denúncia os teus olhos de poeta!

.

Não, meu menino! não é aqui!

.

Esta lareira já nem lembra o fogo.

Berços? - Só o vai-vem das artérias

contando os passos da morte

como o caruncho que rói.

.

Esta Bela Adormecida

é alma sem salvação

e os principes partiram

quando o luar secou.

.

Beijos? - Só esta fome sem remédio

como o pecado da gula.

(O amor não é ser amado:

é amar!)

.

Não, meu menino! não é aqui!

.

Aqui só o acre das lágrimas

na face arada de rugas:

as lágrimas ferozes e gratuitas

sem um perdão ou uma esperança.

.

In - SETE LUAS - 1ª edição

Edição de Autor, impressa em Abril de 1943

pela Tipografia Atlântida, Coimbra

ERRATA


Maria João Brito de Sousa

24.02.08

Que mundo este, sufocado!

E quer matar o que há-de vir!...

.

Em qual dos dois serei pecado?

A qual dos dois vou disfarçado?

De qual dos dois estou cansado?

.

- Mãe, custa tanto rir!

.

In - JANGADA, 1944

Coimbra Editora

IN - "SOL", 8 DE MARÇO DE 1947


Maria João Brito de Sousa

23.02.08

"... E se é verdade que António de Sousa é hoje tão sentimental e romântico como há trinta anos, o certo é que, poeticamente, se enriqueceu; a sua imaginação verbal, o seu intelectualismo, o seu sarcasmo, o seu realismo lírico, digamos assim, tornou-o um dos poetas mais interessantes da moderna literatura portuguesa."

.

João Gaspar Simões

.

AUTO-DE-FÉ


Maria João Brito de Sousa

22.02.08

Era a vaga dos sentidos

correndo as margens do Espaço

e a caber no meu abraço

sobre os teus ombros vencidos!

.

Era outra vez o Jardim

- céu macio de luar -

antes de a Cobra falar

com princípio, meio e fim.

-

Era um morrer de veludo

pelo voo dos teus dedos

ao meu corpo sem segredos;

a hóstia da tua boca

e a fome na minha, rouca...

.

Veio a alma... queimou tudo!

.

In - JANGADA , 1ª edição

Coimbra Editora - 1946

FEITIÇO


Maria João Brito de Sousa

21.02.08

Foi a noite e foi o dia

e a cinza duma alegria

e a palavra começada e pela morte cortada!

.

Antes de haver pensamento

foi um bater sonolento

dos olhos verdes da aragem,

e o brando afago do vento

nos cabelos da folhagem.

.

E foi o grito perdido

duma oração sem sentido

para um deus crucificado

no seu próprio pecado!

.

Foi um luar de mãos juntas

e a minha boca cheia de perguntas!

Meio, sem princípio e fim...

O meu amor foi assim.

.

In - Ilha Deserta (2ª edição)

Editorial Inquérito - 1954

CAMINHEIRO


Maria João Brito de Sousa

20.02.08

Que distância vai perdida

nos teus olhos, amor!

- Teus beijos, o teu sabor;

o sal da minha vida!

.

A vida que me pedia

a ternura dos teus braços!

A onda dos meus abraços:

o que eu valia!

-

Ai, nem ave nem flor

nos meus caminhos doridos!

Gastos os cinco sentidos

por amor...

.

(Que importam cuidados

se o destino vem?

Quem dá o que tem

só dá seus pecados...)

.

In - O NÁUFRAGO PERFEITO

Editorial Atlântida - Coimbra, 1944

ACORDES


Maria João Brito de Sousa

19.02.08

Quando a estrela começou a cantar

já ele tinha cabelos brancos,

o lábio duro e as unhadas do tempo

na cera fria da face.

.

Uma canção angélica, de paz,

verde como essa luz do amor primeiro.

Embebia-se dela a noite mansa

e tudo esperava uma revelação.

.

Ele ouvia-a pelo ouvido direito

(ao esquerdo um mar de trevas cachoava)

guardando os olhos moles - moles moluscos -

nas pápebras cerradas.

.

Quando a estrela começou a cantar

já era ao pobre o coração de ferro.

Mas os dedos subtis da melodia

abriram nele uma flor de luar...

.

In - Livro de Bordo - 1ª edição, 1950

Editorial Inquérito

.

EXÍLIO


Maria João Brito de Sousa

18.02.08

Cobriu-me de desprezo o dia pardo,

a flor azul do riso das donzelas,

o lento rio de águas amarelas

e o frio, que me pesava como um fardo.

.

Meu sonho - voo tonto de moscardo

a tentear vidraças de janelas -

zoava de horas húmidas e belas,

morria seco e duro como um cardo.

.

Sempre de mim a mim, nos meus caminhos,

pedindo em vão a esmola de vizinhos

e lume certo a um lar que não tem brasas.

.

Menino triste, que já é demais,

sou de filhos, irmãos, mulher e pais

para esconder do Céu uns cotos de asas...

.

In - Livro de Bordo - 1ª edição, 1950

Editorial Inquérito

.

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