Amigos! Eis aqui o dos olhos de mel! O Poeta!
.MJoão Sousa

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Segunda-feira, 31 de Março de 2008
BREVE POEMA ÉPICO

Sete leões e o profeta no meio,

com óculos, de preto, guarda chuva

e uma saudade desbotada

no bolso do coração.

.

O céu triste e calado como os mortos;

as colinas à espera de pintor

e o rio como um doido a bater palmas

e a babar-se nas fragas.

.

Sete leões da terra de ninguém

todos goelas  força e sede viva.

O profeta no meio, tão profeta

que o medo lhe parecia Anjo da Guarda.

.

Magro, pois a comida de palavras

nunca foi coisa que matasse a fome...

corpo talhado a jeito de baínha

ao espírito - uma espada feita de ar.

.

Sete leões como os sete pecados,

ali, inteiros, no Jardim de Deus;

as portas milenárias em pedaços

e o Todo-Alma a estuar de fé.

.

A cada uivo - um múrmuro versículo;

para o raspar das unhas as mãos juntas

e aos saltos decisivos como raios,

um - Satan, vade retro! e o guarda-chuva!

.

Depois... tudo acabou na digestão

do profeta, do rio e até do céu!

Mas um poeta virá com outros sóis

para ver nascer flores dos cadáveres dos leões.

.

In - Sete Luas, Coimbra, 1943


sinto-me: pequenina...
música: silêncio

publicado por poetaporkedeusker às 21:51
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Sexta-feira, 28 de Março de 2008
FADO DO NAVEGANTE

Meu lugre "Vento de Maio",

todo pintado de azul,

comprei-o nos mares do Sul

a um pirata malaio.

.

Lá onde o céu é maior

trafiquei pérola e copra;

a todo o vento que sopra

soube o caminho de cor.

.

Um dia, não sei porquê,

(frágeis que são as memórias...)

fiz-me a águas hiperbóreas

a vr o que lá se vê.

.

No meu regresso do Polo

trouxe uns sorrisos de gelo,

esta neve no cabelo

e duas focas ao colo...

.

Cheguei inteiro a Lisboa,

mas ninguém me conheceu!

Por isso pintei de breu

a minha vela de proa.

.

Triste, vendi o navio;

só uma corda guardei.

Os nós que dei e desdei

até que ficou no fio!

.

Mas o saber verdadeiro

e o gosto do mar amigo

vão para a morte comigo

no meu secreto roteiro.

 

In - Sete Luas, Edição de 200 exemplares da Tipografia da Atlântida, 1943

Na fotografia: António de Sousa, Eduardo Correia e Políbio Gomes dos Santos, o prematuramente falecido Poeta do "Novo Cancioneiro".

Fotografia inédita (à data da sua morte) de António de Sousa em Coimbra, na década de 40.

Esta fotografia ilustrava o artigo com que "O Jornal" anunciou a morte de António de Sousa.


sinto-me: tardia
música: SAUDADES DE COIMBRA- António de Sousa e António Menano

publicado por poetaporkedeusker às 22:32
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Sexta-feira, 7 de Março de 2008
ESQUEMA

ASA - Mas não de perto,

que de perto não vôo,

vou de rastos.

Anjo deserto,

são as asas, primeiro, que me rôo

ao silêncio dos astros.

.

(Quanto pode esta fome de viver

que de mim se sustenta e me sustém!

Tudo o que é não-morrer

me sabe bem).

.

In - LINHA DE TERRA

Editorial Inquérito - 1952


sinto-me: em auto-punição subjacente

publicado por poetaporkedeusker às 17:14
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