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Amigos! Eis aqui o dos olhos de mel! O Poeta!

.MJoão Sousa

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CRÍTICA LITERÁRIA (continuação)


Maria João Brito de Sousa

30.09.08

Esta poesia define bem a maneira poética de António de Sousa. Não há nela expressão directa do sentimento ou da intenção a que alude. Sôbre uma emoção - a emoção do envelhecer - construiu ele esta metáfora, aparentemente inexistente graças à integração imediata na sua expressão transposta ou alusiva. Intelectual, dizia, de um intelectualismo que força as emoções a serem consciência antes de serem emoções, o poeta de "O Náufrago Perfeito" tinha de pertencer à linhagem dos nossos poetas metafóricos. Na verdade até em Camões é difícil, por vezes, encontrar a analogia entre o poema e o seu significado lógico. Há versos seus que são enigmas. Porém não carecem de ser decifrados graças à beleza que em si mesmo possuem. Para sentirmos a majestade da Esfinge, não precisamos de conhecer o segredo que ela esconde.  (continua)

 

In - "Diário de Lisbôa" , 21.2.1945  (artigo de João Gaspar Simões)

CRÍTICA LITERÁRIA (João Gaspar Simões)


Maria João Brito de Sousa

29.09.08

 

NO DOMÍNIO DA METÁFORA

 

Se volvermos olhos à nossa poesia clássica, vemos, por um lado, uma corrente a que poderemos chamar "imagista", e nela se contam um Bernardim, um Rodrigues Lobo ou um Gonzaga, e outra a que poderemos camar "metafórica", onde Camões, Sá de Miranda ou Bocage estão à vontade. salvo o que há de arbitrário em classificações deste quilate, o certo é que estas duas tendências se perpetuam ao longo da nossa história literária. Correspondem a duas formas de mentalidade: uma instintivamente lírica, outra lírica consciente ou semi-conscientemente. Nesta última se integram muitos dos chamados poetas "modernistas" ou modernos.

Efectivamente, a nossa poesia moderna ou "modernista" pôs em causa a metáfora como forma de expressão poética corrente. A poesia de Fernando Pessoa, mesmo quando é aparentemente directa, assenta sobre a metáfora. nela a expressão não é espontânea. Nela não é nua e directa a "idea", chamemos-lhe assim. Dir-se-ia que, para os poetas modernos, a poesia é condensação mais ou menos consciente, em formas líricas alusivas a emoções, sensações ou ideias que, em si mesmas, não podem ser poéticas.

Lendo os versos do último livro de António de Sousa, "O Náufrago Perfeito" (Atlântida, Coimbra), apresentou-se-me em toda a sua complexidade, o problema dessa poesia metafórica que é, com raras excepções, a dos poetas que continuam a tradição "modernista". O autor de "Ilha Deserta" é, antes de mais nada, um intelectual. Poeta, verdadeiro Poeta, na capacidade de se integrar na postura do homem que apenas recolhe da vida o mel das emoções, António de Sousa não pode, não sabe ou não quer vir até ao parapeito da Poesia na inocência das imagens que se lhe precipitam do fundo da sua natureza emocional e, assim, cada uma das suas composições é uma espécie de metáfora a que se amputaram os pontos de relacionação.

 

...olho os cabelos brancos

dêste dia de outono

- a chuva sossegada

 

e ainda ontem brinquei horas e horas

com o sol e com a lua!

 

Quem roubou essas pedras do meu jôgo

e, de repente, nos envelheceu

- a mim

e ao céu?

 

(continua)

 

In - Diário de Lisbôa, 21.2.1945

À LA MINUTE


Maria João Brito de Sousa

27.09.08

 

CORAÇÃO sem fronteiras,

eu não escolho:

amo!

 

(Eu nasci na Calçada das Virtudes,

e a Charitas, diz S. Paulo,

é delas a maior.)

 

Mas em dia em que esteja inchado das vaidades

ou de mau fígado,

fecho o velho breviário de humildades

e (se posso)

parto a cara ou a alma ao primeiro sujeito

(até posso ser eu...)

que me falte ao respeito!

 

Pobre António!

- O meu amor é um jeito de preguiças,

ou esta fúria de cobarde-valente

e esta proa...

serão só traças do Demónio?

 

In - "Terra ao Mar", Editorial Inquérito, 1954

 

Imagem - Ilustração da capa - Gravura de Manuel Ribeiro de Pavia

 

 

ENCONTRO


Maria João Brito de Sousa

25.09.08

Marinheiro dum céu que me perdera,

com sete luas ao luar de Outono,

dos meus sonhos nenhum te concebera

nem te cantava a minha voz sem dono.

 

Adormeci. As tuas mãos de cera

desfolharam carícias no meu sono

e Deus, que da minh`alma se esquecera,

de teus beijos floriu este abandono.

 

Adormeci. À hora da partida,

à luz que os fortes bebem como vinho,

adormeci, para fugir à vida.

 

Vieste. Sei agora porque sou:

era sonhar - não ser - o meu caminho.

Fugi à vida - a vida começou.

 

In - "Livro de Bordo" , 2ª edição

       Publicações Europa-América, 1957

 

Imagem - Ilustração de Manuel Ribeiro de Pavia

 

HISTÓRIA NATURAL


Maria João Brito de Sousa

22.09.08

 

 

Começou-se num ventre de mulher:

(Sempre uma vida nova é como um roubo...)

Foi menino e poeta e sempre lôbo!

 

Um chôro de mulher dói no seu riso:

Pelas suas traições e seus pecados

só beijos e perdões lhe foram dados.

 

Credo (se o tem...) é um sonho de mulher:

a mal-amada que lhe disse o amor:

- Ama!

Até a morte e a dor!

Maior será o que melhor se der!

 

(Ah, meu Deus, não apagues esta chama!

E venha o que vier!)

 

 

In - "O Náufrago Perfeito", Coimbra, 1944

ABRAÇO DE COMETA!


Maria João Brito de Sousa

21.09.08

 

Olá avô! Pelo sim, pelo não, venho deixar-te o meu abraço de cometa.

O "nosso" abraço de cometa.

Pode ser que ainda venha publicar mais alguns poemas dos teus livros, mas também pode acontecer que o não possa fazer. Pode ser que volte mais tarde. Não sei quando. Nunca sei quando...

Às vezes sou um bocadinho amarga, como tu, mas tu sabes que, de uma maneira geral, procuro manter-me em contacto com o mundo. Nem sempre é fácil e, por vezes, é mesmo impossível. Aos poemas, a esses não os largo! Nos cadernos, nas paredes, se não houver dinheiro nem para papel, mas esses irão continuar! Comigo. Connosco. Como o fio-de-prumo da nossa vida. Abraço de cometa!

 

 

SALMO


Maria João Brito de Sousa

20.09.08

 

De não saber morrer me vou vivendo,

inquieto, como os bichos acossados.

De vez em quando um beijo,

e os meus cuidados

como um ventre de grávida crescendo

a um parto que não vejo!

 

- Lua de versos, ó madrinha incerta

das minhas horas nuas, cor de lava

dessa illha deserta

onde o meu sonho cava

com as unhas em sangue o seu caminho!

Ó lua errante por um céu maninho,

se não podes salvar-me, dize ao vento

que me desfaça esta carne pesada

e me semeie os ossos, noite fora!

 

(O meu tormento

é a sombra varada

duma dor que demora

além da sua hora.)

 

- Ó lua, mãe de medo,

deixa, ao menos, uivar-te o meu segredo!

 

 

In - "Terra ao Mar", Editorial Inquérito, 1954

COMUNICADO


Maria João Brito de Sousa

19.09.08

Olhando a paz do rio,

A guerra descansou,

sem fôlego, três dias.

Depois o vento que a trouxe

como uma foice a levou!

 

Houve luar - um véu

para o pudor dos astros;

uma esquadrilha em vôo

e três cruzes de rastos.

 

Metálicos milhafres,

as máquinas abriram

longas feridas no céu,

e no céu se sumiram...

 

Onde parara a Bêsta,

a descansar, três dias,

silêncio só ficou,

o véu celeste e as cruzes

por chaves de agonias.

 

Uns mortos que outros mortos enterraram,

sem padres, sem eças,

sem rezas, sem luzes,

tôscas, três cruzes os fecharam

à beira dum rio.

 

(Assim mesmo, o lôbo

que somos nós-todos

e que ninguém é,

irá farejá-los pé-ante-pé,

e uivar à lua por desfastio!...)

 

In - "O Náufrago Perfeito"

       Coimbra, 1944

O NÁUFRAGO PERFEITO


Maria João Brito de Sousa

16.09.08

 

O Dr. António de Sousa, que já havia dado à estampa, de 1918 a 1943, cinco obras em verso - "Cruzeiro de Opalas", "O Encantado", "Caminhos", "Ilha Deserta" e "Sete Luas" -deu, pouco há, a público, novo livro que significativamente intitulou de "O Náufrago Perfeito" e a Atlântida de Coimbra editou em gracioso volume.Poeta autêntico, por cujo estro fecundo perpassa toda a gama de emoções humanas, António de Sousa, de quem não conhecíamos as obras anteriores, exprime a sua mensagem poética com uma originalidade e uma frescura que sugerem, por vezes, Cesário Verde. Cultivando, quási sempre, os ritmos clássicos, o poeta constrói os seus versos ao sabor de uma inspiração que se mostra espontânea e robusta. Díficil, senão ímpossível, filiar os versos de António de Sousa em determinada escola,pois, se esta composição se assinala pelo seu alor romântico, aquela caracteriza-se pela objectividade naturalista. Ao mesmo tempo que o sentimentalismo se expande em composições de expressão -digamos assim - tradicional, a sátira, o sarcasmo, a ironia, o apontamento crítico e intencional trabalhados por processos muito pessoais, mostram outra das facêtas do espírito do poeta, manifestamente rico e pródigo. Acima de tudo, porém, salienta-se a maneira de ser, verdadeiramente moderna, que o poeta exprime na na maior parte das suas composições. A beleza formal, notável em todos os seus versos, deixa transparecer a beleza essencial, que é, na poesia moderna, o que mais importa e se recomenda. Algumas das concepções do poeta são francamente arrojadas, mas é inegável que um forte e ardente sôpro de vida areja todos os versos de "O Náufrago Perfeito". As composições pertencentes a "Céu Fechado", primeira parte da obra, são, talvez, as mais interessantes, pelo jogo das ideias e palavras, sempre brilhante e atraente. Contudo, nas composições da segunda parte, "Terra de Sombra", António de Sousa faz lembrar, aqui e ali, Camilo Pessanha, o que vale por dizer que a sua poesia acusa um timbre invulgar e fino.

 

In - "O Comércio do Pôrto", 26.10.1945

       (artigo não assinado)

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