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antoniodesousa

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Amigos! Eis aqui o dos olhos de mel! O Poeta!

.MJoão Sousa

Cria o teu cartão de visita

...


Maria João Brito de Sousa

28.10.08

 

Confesso. Confesso que acordei à uma da tarde com um telefonema que gostaria de nunca ter recebido.

Confesso que estou lenta e toda "partida" e que quase deseperei enquanto tratava a minha "gente". Confesso que deixei escapar o Spirit e que fiquei inevitavelmente esgatanhada no, ainda mais invitável, confronto que se deu com os outros 13. Confesso que tenho uma dor de cabeça tão monumental que quase me parece desumana. Confesso que fiquei com vontade de mandar o 2008 às urtigas quando ele voltou a "empancar", como vem acontecendo há mais de 48 horas. Confesso que estou farta de fazer actualizações manuais e os "scan the whole computer" que me desesperam durante exactamente 1 hora, 8 minutos e 53 segundos. Confesso que estou farta, fartíssima, de não ter acesso à caixa de correio, de não conseguir abrir páginas... confesso que, hoje, mal me reconheço.  E porque este desespero todo - ou raiva, ou desistência, ou tudo à mistura... - não são, graças a Deus, comuns em mim, nasceu-me outra Maria-Sem-Camisa, essa que é 99,9% de mim e que me veio "abanar" as ideias. É que este estado de espírito não leva a coisa nenhuma e ela resolveu brindar, com a sua gargalhada, o 0,01% da minha pessoa que, hoje, decidiu comandar-me.

 

MARIA-SEM-CAMISA XV

 

Maria-Sem-Camisa nunca trai!

Pode, às vezes zangar-se, olhar de lado,

Mas guardará consigo o que contado

Lhe pode dar razão. Mas cala e sai.

 

Maria-Sem-Camisa está zangada?

Foi porque o Mundo quis manipular

A forma de "se ser" e de "se estar"...

O resto não a toca quase nada!

 

Maria-Sem-Camisa, olha esse gato!

Perpetuou tamanho desacato

Que a casa ficou toda em desalinho!

 

Mas Maria desata à gargalhada...

A casa, mesmo assim desarrumada,

É o seu universo, é o seu ninho...

 

 

"Ashes" - Edward Munsch

Imagem retirada da internet

 

 

 

 

EVA


Maria João Brito de Sousa

23.10.08

Quando jurei viver pelo teu nome,

deslumbrado, julguei que renascia

na infância do mundo, um certo dia,

antes do mal, das lágrimas,da fome.

 

E fiz de ti, amada que não amas,

com pecados mortais, o Paraízo!

Escravo do teu Dia-de-Juízo

como um farrapo que se atira às chamas!

 

Por ti andei na sombra da loucura

- sombra de amor, de raiva, de ciúme -

meu demónio, meu deus, minha tortura!

 

Se ao menos fôsses minha!... - Nos meus braços,

feroz, - tão longe! - a tua voz de lume

é só duns céus exóticos e baços!...

 

 

In - "Caminhos" - Composto e impresso na tipografia da "Seara Nova"

                           Lisboa, 1933

                           Capa de Diogo de Macedo

      

NINGUÉM


Maria João Brito de Sousa

18.10.08

Quando o caminho sobe, eu adormeço

sôbre o cansaço de não ter andado:

ao luar-de-mim-mesmo me anoiteço,

com este amar de coração parado.

 

Um fim-de-raça foi o meu comêço

e, sem naufrágios, pelo mar coalhado

destes dias que vivo e não mereço,

o meu futuro é feito de passado...

 

Sonho que sonhe fala-me de algêmas

e gastei com as tintas duns poemas

esta côrdo meu sangue já sem côr!

 

Inocente ou culpado (à Sua imagem!),

eu nem sei porque teimo na viagem

duma vida vivida por favor.

 

 

In - "O Náufrago Perfeito" , Coimbra, 1944

 

Desenho de Manuel Ribeiro de Pavia

 

Imagem retirada da internet

AINDA SOBRE "O NÁUFRAGO PERFEITO" (por Deniz da Luz)


Maria João Brito de Sousa

14.10.08

Escreveu um bom crítico. "António de Sousa é um dos poetas portugueses mais originais na aliança da velha graça lírica com um humor moderno, rude e fino. Se todos os nossos poetas se confessam, êle é um dos poucos que, fazendo-o, contam com o juízo final. Joga o seu jôgo a descoberto, entre a responsabilidade e o destino."

António de Sousa, pintando-nos agora  alma de "O Náufrago Perfeito", revela-nos novas possibilidades e encantos de uma das mais veementes sensibilidades existentes na poesia portuguesa actual. As imagens mais belas do nosso lirismo, do lirismo tradicional, na arte do autor de "O Náufrago Perfeito", surgem com atitudes e desfechos imprevistos, com pronunciada tendência para um pitoresco simbólico.

Lêem-se com verdadeiro encanto alguns dos seus belos poemas como o "Salmo":

 

Senhor maioral

dos pastores da serra,

para a sua terra

subo do meu vale.

 

Senhor maioral!

Que nestes ares

a minha voz se mude!

 

Dê-me a estamenha rude

e a frauta de zagal.

 

Seja a minha alma em graça

e a voz das fontes

a voz dos meus segredos

e sejam meus irmãos estes penedos

e o meu amor a luz dos horizontes.

 

Que a minha vida

como o luar derive,

guardando o gado

aqui, por estas brenhas

e eu venha apascentar

entre montanhas

certo rebanho de ilusões que tive...

 

E assim por diante, António de Sousa, nalguns poemas seus, leves como as asas de versos com que voam, atinge, por vezes, o inefável mais luminoso e mais puro.

A originalidade está já nas suas mãos. Isto, em Poesia, é quási tudo.

Vibra, também, nos seus poemas, aquela saudade da meninice e aquele sentimento de meninice perene - em contraste com o mundo e a vida - freqüentes e comovidos nos nossos melhores poetas.

Nem tudo porém em "O Náufrago Perfeito" são visões cândidas. Há no livro muitas lágrimas e destroços de naufrágio. Abundam certos lances sensuais e certas expressões que podem ferir ouvidos menos acotumaos aos gritos e despeitos da vida.

António de Sousa tem o seu lugar numa estante selecta a poesia contemprânea.

 

Denis da Luz

 

NOTA - O recorte de jornal não permite identificar o periódico.

 

 

FIGURA DE PASSAR


Maria João Brito de Sousa

11.10.08

Paguei o preço da vida

(Quanto?)

não sei a quem nem porquê,

mas sei que fui despedido!...

 

Tanto regaço macio!

Como quisera ficar!

Eu, o momento de um beijo,

a figura de passar...

 

Eu, o gôso de um desejo

e o desepêro mordido,

que vi jantar os felizes

e tôda a minha baixela

são as mãos cheias de vento!

 

In - "O Náufrago Perfeito", Coimbra, 1944

AGUARELA


Maria João Brito de Sousa

09.10.08

Passeavam, sempre moças-e-meninas

- luar nas mãos e um halo de miragem -,

lá na colina verde, entre a folhagem

dum bosque, cheio de águas e boninas.

 

Fêz-se-me em linhas lúcidas e finas,

lá na colina verde, essa viagem,

e colou-se-me à vida aquela imagem

das horas sempre virgens e meninas.

 

Ai, horas! Meus amores de ledo engano

ao desejo de um céu, que fôsse humano

como o consôlo morno de um regaço!

 

Ai, horas! Fogos-fátuos num espelho

onde me fico desmanchado e velho,

neste lasso vai-vem do mesmo espaço...

 

In "O Náufrago Perfeito", Coimbra, 1944

 

Imagem - "Dicotomia" - Aguarela e pena

               Maria joão Brito de Sousa, 2002

EXÍLIO


Maria João Brito de Sousa

06.10.08

 

 

Nua, a minh`alma vinha de paisagens

como noivas, sorrindo nos seus véus.

Eu era um natural filho de Deus,

mas a vida cobriu-me de tatuagens.

 

O meu destino é feito de miragens:

à lua, sei de uns sonhos que são meus,

mas quando a sombra me devora os céus,

queima um fogo sem côr suas imagens!

 

Ai, amar como os outros! (Sem talento,

aberto o coração, as mãos leais,

a sorrir e a chorar de sentimento...)

 

Ter nos braços a paz de um corpo amado

sem este bruxo, este demónio aos ais

a pintar-me de deus crucificado!

 

In- "O Náufrago Perfeito", Coimbra 1944

 

CRÍTICA LITERÁRIA (conclusão)


Maria João Brito de Sousa

04.10.08

 Um enigma pode ter beleza em si próprio, independentemente da sua decifração. É o caso de certos versos de Fernando Pessoa:

 

Sol nulo dos dias vãos,

Cheio de lida e de calma,

Aquece ao menos as mãos

A quem não entras na alma!

 

É dispensável decifrá-los para lhes sentirmos a beleza. em António de Sousa também se encontram muitos versos em que a beleza basta só por si. É o caso de poesias como esta:

 

A primeira infância

quere-se com seus pais

e a minha ignorância

é saber demais.

 

Há o luar fundo,

mas passei no vau

e desci ao mundo

sem pedra nem pau.

 

-Menino, donde é,

assim tão sózinho?

-Vou pelo meu pé

para o meu caminho.

 

e de todas aquelas em que conseguiu libertar, sem constrangimentos, a personalidade sequiosa de expressão. Com efeito, não obstante essa espécie de pudor que a metáfora protege, antepondo-se a qualquer a qualquer tradução desprovida de emoções, ansiedades ou desejos, sente-se que antónio de Sousa aspiraria a um abandono que não ousa. Tolhe-o não sei que receio de se banalizar, não sei que pudor de se dar tal qual. É muito possível que, de facto, o prestígio da sua poesia esteja mais na forma do que no "fundo", se me é permitido estabelecer tão escolástica distinção. Pelo menos o próprio António de sousa deixa-nos pensar assim. quando, por exemplo, diz:

 

Noite na cama.Sonho. Bons sapatos velhos

para os calos da alma

e lá vou eu, de viagem,

ao fundo da minha vida!

 

somos levados a pensar que, de facto, é a forma, não o fundo, que se reveste, aqui, de uma tão forte originalidade. Não é na essência que está, de facto, a originalidade mas na expressão, na forma. Tudo o que nela é estranho, singular, invulgar, difícil, belo realmente, é essa espécie de tessitura de sonho em que o poeta se oculta. A estranheza de "O Náufrago Perfeito2 começa no título. Não haverá uma certa desproporção entre entre a sua originalidade, quiçá forçada, e o sentido que, de facto, encerra? Perfeito náufrago é aquele que sossobra integralmente: um Robinson da vida. António de Sousa não se contenta em ser "perfeito náufrago", expressão em que cria, ao mesmo tempo, uma metáfora e o seu significado lógico. Não, António de Sousa quis ser o "O Náufrago Perfeito", aquele que entre os náufragos é de facto o náufrago completo, integral, excepcional. Bem pode ser que não tenha sido essa a intenção do poeta, mas é nesta confusão, nesta ambiguidade que se traduz, afinal, tudo o que temos tentado dizer. na poesia de António de Sousa o fundo é fácil e a forma complicada. António de sousa é um exemplo do poeta refugiado na metáfora para se enriquecer poeticamente.

Mas será assim? Não haverá na personalidade do autor de "Ilha Deserta" algo de mais profundamente original do que as metáforas com que reveste a sua poesia? Eis o que se não chega a ver claramente na sua obra. Nem mesmo neste livro, quiçá o mais o mais original, o mais pessoal de quantos tem publicado.

É muito possível que a expressão própria de António de Sousa esteja nessa espécie de humorismo metafórico que aflora em algumas das suas composições e rompe com o preciosismo metafórico que as domina. O "Náufrago Perfeito" não é um livro vulgar. António de sousa é um poeta inconfundível. Ficamos esperando, todavia, que se classifique mais. De livro para livro acentua-se mais a sua personalidade. O perfeito naufrágio é um passo em frente.

 

Artigo de João Gaspar Simões, in "Diário de Lisbôa", 21.2.1945

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