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antoniodesousa

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Amigos! Eis aqui o dos olhos de mel! O Poeta!

.MJoão Sousa

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TERRA DE SOMBRA


Maria João Brito de Sousa

29.11.08

No meu coração há um lugar hostil

- uma terra sem nome,

nua

e brava,

onde um vento doido sua e cava

covas de sombra para a lua

e, há trinta anos (ou mais de mil?),

uivo de fome.

 

Há névoas baças  - entre uns penedos ,

cardos e urzes que ninguém come -

que se congelam e se condensam

em pobres limos e humidade...

Ai, vale enfermo de saüdade,

terra sem benção,

a um céu ruivo de ruivos mêdos,

negra de fome!

 

- o teu caminho que seja um vôo,

oh mal-amada! deixa que dome

o seu destino ou que se suma

a mancha torpe de veneno,

o inferno pálido e pequeno,

lá onde o inferno é lôdo e espuma! -

 

na terra de ninguém que  só eu sou,

eu, só, me ganhe ou perca à minha fome.

 

 

In O Náufrago Perfeito", Coimbra, 1944

 

 

Imagem retirada da internet

RUGA


Maria João Brito de Sousa

26.11.08

 

                                                         Memorando Álvaro Pinto.

                                                         A João Castro Osório.

 

Eu não me sei: ando a enganar a vida

e  sou de amor ao luar desta negaça!

(Mesmo na voz de uma canção perdida

cabe um indício da divina graça.)

 

Mas não deites mais sonho, mão de Deus!

no vago deste velho coração.

Quero certeza como luz dos céus

e diga meu destino sim ou não.

 

(Cabelos brancos dão negra colheita

à fome que subiu de há tantos anos.)

 

- Peregrino de sombras e de enganos,

porque pedes verdade a padres-nossos

no deserto de gelo dos teus ossos?

 

 

In "Livro de Bordo", 2º edição, 1957

 

Imagem retirada da internet

 

 

FADO CORRIDO


Maria João Brito de Sousa

23.11.08

Quando me leram a sina

na palma da minha mão,

inda a vida era menina

dentro do meu coração.

 

"El señor tiene dos vidas"

- Melhor nenhuma tivera!

Se uma são horas perdidas

e a outra é estar sempre à espera.

 

Todos sabem onde está

a chave dos seus caminhos;

só eu, de cá para lá,

jogo aos meus quatro cantinhos!

 

Quando o amor por mim passou,

para mal dos meus pecados,

ou mentiu ou se enganou,

e deu-me beijos trocados.

 

"Quem canta seu mal espanta!"

disse quem fala de cor:

- O que a minha boca canta

anda sempre ao meu redor!

 

Pus-me a rir pra quem passava,

com pena de lhe ter pena,

mas a mim não me enganava

o juiz que me condena.

 

"El señor tiene dos vidas!"

- E quem lhes sabe o segredo?

Vinham ambas já vividas

ou eu sou feito de medo?

 

 

In "Ilha Deserta", 2ª edição, 1954

 

Imagem retirada da internet

 

 

 

ESCALA


Maria João Brito de Sousa

21.11.08

Ó rio de monte a monte,

vais ao mar que não conheces!

olha a areia ali defronte,

a pedir que não te apresses!

 

Destino dos desafios

ilusos, passada a rede,

ó mar que bebes dos rios,

onde acaba a tua sede?

 

Rios e mar, todos juntos,

chora o meu canto em bemóis.

São sempre sonhos defuntos

as pescas dos meus anzóis.

 

Cá vou no barco das horas,

a bandeira a meia adriça.

Tudo me serve a demoras,

que eu viajo por preguiça.

 

Dobro-me em medidos pobres

e à flor das águas me escuta

o deus-dos-pecados-pobres.

(A morte quer-me sem luta)

 

 

In "Linha de Terra", Lisboa, 1951

A VELHA SALA


Maria João Brito de Sousa

19.11.08

A velha sala sonolenta

cheira a bordado, a missanga,

a flores mortas, a tristeza, a pó.

Cheira a silêncio inútil

e a amareladas pontas de cigarros

só fumados até meio.

 

A traça roi, nas estantes,

livros que já ninguém lê,

livros que ninguém leu até ao fim.

Do piano, se o tocassem,

a música saíria com bolor!

 

Da velha sala sonolenta

vem qualquer coisa que dá pena

e vontade de fugir!

 

Oh, a minha alma cheia de saudades!

 

In "Ilha Deserta" (2ª edição), Lisboa, 1954

 

Imagem retirada da internet - V. Van Gogh

DESCAMINHO


Maria João Brito de Sousa

17.11.08

Tinham-me dado um segredo.

Sabê-lo, sem mais ninguém,

era sofrer de alegria!

Amava-o! Tinha-lhe medo!...

Mas guardá-lo muito bem

era tudo o que eu valia.

 

Passei por terras estranhas,

não sei que penas de exílio

por amor dele. Depois,

que desoladas montanhas!

Que desertos sem auxílio!

Mas, deixá-lo! Éramos dois!

 

(Triste mas belo, o caminho!)

Certo dia, não sei quando

- se o lembro, mais se perdeu...-

chamaste por mim, baixinho.

Foste minha! Fui-me dando

até ficar todo teu!

 

Agora vivo a teus pés.

Não vejo mais nem decoro

o meu segredo esquecido.

Sei apenas como és!

E chamo, desdenho e choro

o meu caminho perdido!

 

 

In "Ilha Deserta", Lisboa, 1954

 

Imagem retirada da internet

 

 

REFLUXO


Maria João Brito de Sousa

13.11.08

Esta vaga magia de ser triste

é o azeite que ponho na candeia,

o fermento do pão da minha ceia,

meu sorriso que dói mas não desiste.

 

Tantos me julgam fáci na alegria

e eu, de mim, sou a noite de um segredo!

O meu amor é a tremer de medo

desse Amor que, decerto, me sabia.

 

Amo a graça longínqua das estrelas,

o fluido fantasmático da bruma

e o longo adeus marítimo das velas.

 

Onda que ao largo se perdeu da praia,

vou-me disperso em lágrimas, espuma,

e talvez neste enrêdo vos distraia...

 

 

In - "Linha de Terra", Editorial Inquérito, 1951

 

Desenho de Manuel Ribeiro de Pavia

 

NOTA - Este é o meu preferido, de todos os sonetos de           

             António de Sousa e também o que melhor o de-

              fine, na minha opinião.

 

 

 

ACORDES


Maria João Brito de Sousa

05.11.08

 

                                    Ao Miguel Torga e à Andrée Crabbé Rocha

 

Quando a estrela começou a cantar

já ele tinha cabelos brancos,

o lábio duro e as unhadas do tempo

na cera fria da face.

 

Uma canção angélica, de paz,

verde como essa luz do amor primeiro.

Embebia-se dela a noite mansa

e tudo esperava uma revelação.

 

Ele ouvia-a pelo ouvido direito

(ao esquerdo um mar de trevas cachoava),

guardando os olhos inquietos

nas pálpebras cerradas.

 

Quando a estrela começou a cantar

já era ao pobre o coração de ferro.

Mas os dedos subtis da melodia

abriram nele uma flor de luar.

 

 

In- "Livro de Bordo", 2º edição, 1957

MEA CULPA


Maria João Brito de Sousa

03.11.08

Versos

- Coisas no ar...

e toda a gente

marcha que marcha em frente,

abrindo as veias a lutar

por uma estrêla que dá norte

à sua vida, até à morte!

 

Versos

- coisas no ar...

A magas luas

subindo, de asas nuas.

- Fumo de sonhos a coar

para outra estrêla, de outro norte,

lá de outra vida e de outra morte...

 

Versos

- minha maneira de rezar

 

 

In "O Náufrago Perfeito", Coimbra, 1944

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