Amigos! Eis aqui o dos olhos de mel! O Poeta!
.MJoão Sousa

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Sábado, 29 de Novembro de 2008
TERRA DE SOMBRA

No meu coração há um lugar hostil

- uma terra sem nome,

nua

e brava,

onde um vento doido sua e cava

covas de sombra para a lua

e, há trinta anos (ou mais de mil?),

uivo de fome.

 

Há névoas baças  - entre uns penedos ,

cardos e urzes que ninguém come -

que se congelam e se condensam

em pobres limos e humidade...

Ai, vale enfermo de saüdade,

terra sem benção,

a um céu ruivo de ruivos mêdos,

negra de fome!

 

- o teu caminho que seja um vôo,

oh mal-amada! deixa que dome

o seu destino ou que se suma

a mancha torpe de veneno,

o inferno pálido e pequeno,

lá onde o inferno é lôdo e espuma! -

 

na terra de ninguém que  só eu sou,

eu, só, me ganhe ou perca à minha fome.

 

 

In O Náufrago Perfeito", Coimbra, 1944

 

 

Imagem retirada da internet


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Quarta-feira, 26 de Novembro de 2008
RUGA

 

                                                         Memorando Álvaro Pinto.

                                                         A João Castro Osório.

 

Eu não me sei: ando a enganar a vida

e  sou de amor ao luar desta negaça!

(Mesmo na voz de uma canção perdida

cabe um indício da divina graça.)

 

Mas não deites mais sonho, mão de Deus!

no vago deste velho coração.

Quero certeza como luz dos céus

e diga meu destino sim ou não.

 

(Cabelos brancos dão negra colheita

à fome que subiu de há tantos anos.)

 

- Peregrino de sombras e de enganos,

porque pedes verdade a padres-nossos

no deserto de gelo dos teus ossos?

 

 

In "Livro de Bordo", 2º edição, 1957

 

Imagem retirada da internet

 

 


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Domingo, 23 de Novembro de 2008
FADO CORRIDO

Quando me leram a sina

na palma da minha mão,

inda a vida era menina

dentro do meu coração.

 

"El señor tiene dos vidas"

- Melhor nenhuma tivera!

Se uma são horas perdidas

e a outra é estar sempre à espera.

 

Todos sabem onde está

a chave dos seus caminhos;

só eu, de cá para lá,

jogo aos meus quatro cantinhos!

 

Quando o amor por mim passou,

para mal dos meus pecados,

ou mentiu ou se enganou,

e deu-me beijos trocados.

 

"Quem canta seu mal espanta!"

disse quem fala de cor:

- O que a minha boca canta

anda sempre ao meu redor!

 

Pus-me a rir pra quem passava,

com pena de lhe ter pena,

mas a mim não me enganava

o juiz que me condena.

 

"El señor tiene dos vidas!"

- E quem lhes sabe o segredo?

Vinham ambas já vividas

ou eu sou feito de medo?

 

 

In "Ilha Deserta", 2ª edição, 1954

 

Imagem retirada da internet

 

 

 


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Sexta-feira, 21 de Novembro de 2008
ESCALA

Ó rio de monte a monte,

vais ao mar que não conheces!

olha a areia ali defronte,

a pedir que não te apresses!

 

Destino dos desafios

ilusos, passada a rede,

ó mar que bebes dos rios,

onde acaba a tua sede?

 

Rios e mar, todos juntos,

chora o meu canto em bemóis.

São sempre sonhos defuntos

as pescas dos meus anzóis.

 

Cá vou no barco das horas,

a bandeira a meia adriça.

Tudo me serve a demoras,

que eu viajo por preguiça.

 

Dobro-me em medidos pobres

e à flor das águas me escuta

o deus-dos-pecados-pobres.

(A morte quer-me sem luta)

 

 

In "Linha de Terra", Lisboa, 1951


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Quarta-feira, 19 de Novembro de 2008
A VELHA SALA

A velha sala sonolenta

cheira a bordado, a missanga,

a flores mortas, a tristeza, a pó.

Cheira a silêncio inútil

e a amareladas pontas de cigarros

só fumados até meio.

 

A traça roi, nas estantes,

livros que já ninguém lê,

livros que ninguém leu até ao fim.

Do piano, se o tocassem,

a música saíria com bolor!

 

Da velha sala sonolenta

vem qualquer coisa que dá pena

e vontade de fugir!

 

Oh, a minha alma cheia de saudades!

 

In "Ilha Deserta" (2ª edição), Lisboa, 1954

 

Imagem retirada da internet - V. Van Gogh


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