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antoniodesousa

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Amigos! Eis aqui o dos olhos de mel! O Poeta!

.MJoão Sousa

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A MORTE DO ENCANTADO


Maria João Brito de Sousa

31.03.09

Calou-se - bebeu-a a noite -

aquela fonte encantada

que me ensinou a cantar.

Calou-se: bebeu-a a noite

que nunca tem madrugada

nem rouxinóis ao luar!

 

Agora fiquei só eu

e a cinza do meu cigarro

e os livros da minha estante.

agora fiquei só eu:

- Triste boneco de barro

que tivesse alma um instante!

 

Sòzinho choro de bruços,

rojado às pedras da estrada,

saudades nem sei de quê...

sòzinho choro de bruços...

Sou uma estátua quebrada

dum deus em que ninguém crê.

 

Fui um menino prodígio,

incêndio, língua de chama,

pastor de estrêlas e sóis!

- Agora sou um vestígio,

uma pègada na lama

para os que vêm depois...

 

Calou-se tudo; nem ouço

o relógio dos meus versos:

as artérias a pulsar...

a noite... o fundo dum poço...

e, como troncos submersos,

meus ossos a tiritar!

 

Calou-se - bebeu-a a noite -

aquela fonte encantada

que me ensinou a cantar.

Calou-se - bebeu-a a noite,

a que não tem madrugada

nem rouxinóis ao luar!

 

 

In "Caminhos", 1933

 

Nota - Todas as transcrições mantêm, neste blog, a grafia original

DESPEDIDA


Maria João Brito de Sousa

26.03.09

 

Flor de luxo, frívola e bela!

- O não subir à janela

dessa impossível virgindade

não me sabe a demência:

se fujo, é certo, da ci~encia

de quanto é inútil combater

vestido só de verdade.

 

Peixe de cores num rio claro!

- A sede bebe a água e deixa o peixe...

Vena outro pescador e o pague caro;

faça o preciso;

empenhe as barbas, o juízo

e não se queixe!

 

As minhasvelas são para a raiva do vento!

Rudes, não é o sopro de um beijo que as enfuna:

- Filha de El-Rei, guarda os teus patos na laguna!

Eu levo o sonho em que tu voas como o vento.

 

 

In "Sete Luas", 2ª Edição, Editorial Inquérito, 1954

 

 

Imagem retirada da internet

NO DIA MUNDIAL DA POESIA, ACERCA DE ANTONIO DE SOUSA


Maria João Brito de Sousa

21.03.09

A poesia, na nossa terra,atira para o campo da estreia com algumas dezenas de nomes, durante o ano. Uns prometem ser alguém; outros escapam pela tangente; outros, ainda, são uma verdadeira calamidade.De quando em quando, no meio desse número de principiantes, aparece um veterano, daqueles que já entraram ou estão quase a entrar para o caminho da consagração. Estes passam e tornam-se imediatamente notados, como é de calcular. É assim, a modos de quando desfila um regimento, aqui e além, aparecer, destacado, um oficial. E como com esses oficiais acontece, as patentes são diversas. mais altas e mais baixas. Sucedeu isso mais uma vez, agora. depois de terem passado vários desconhecidos, surge um nome que de há muito soube tomar o preciso relevo. refiro-me a António de Sousa, um poeta que se impõe pela obra já publicada e que mais se eleva com este novo livro "Linha de Terra", hásemanas posto à venda, com uma capa desenhada por Manuel Ribeiro de Pavia.

Continuando dentro da sua costumada maneira de ser, António de Sousa, andando, como sempre, encostado ao seu curiosíssimo bordão de "Modernista", sem contudo se embrenhar demasiado em em nebulosidades escusadas, apresenta temas de forma a que, quem os leia, não sinta hesitações perante a belea e a emoção que encerram.

O autor prossegue a ua viagem de inquietante "nauta" que se encontra na sua "Ilha Deserta", se engrandece enquanto "Náufrago Perfeito", soube singrar, sem escolhos, na "Jangada" e nos deu notícias da sua intranquila viagem no "Livro de Bordo", conhecedor da arte de bem conduzir a nau da sua inspiração, velas erguidas para oceanos de longínquo sonho:

 

"Trouxe o navio a querena

a esta praia pequena..."

 

Como ele próprio nos diz no introito deste seu livro.

Praia pequena, segundo me parece, quer dizer que são poucos os poemas que, neste volume, agora nos dá, mas grande na sua intenção, na emotividade, na ânsia que alcança, que conduz a outras praias, sempre no mesmo intenso e dominador gesto de "perfeito timoneiro".

(continua)

 

In "A República" , artigo não assinado, datado de 15 de Fevereiro de 1952.

LENDA DO PATO BRAVO


Maria João Brito de Sousa

19.03.09

 

Voa no céu

- tão alto! -

um pato bravo,

e onda do seu grito

rola no sangue vivo do poente:

 

"Suam-me versos estas noites velhas

que me descem dos olhos,

lá do fundo,

onde é, talvez, o coração que vê.

 

Digo ao que vem à frente dessas horas:

- Aqui, viver ou morrer,

mas devagar!

E grito o meu orgulho a sete luas mortas...

 

Depois, gran-duque e senhor

e rei de um reino de pedir às portas,

choro

e esmolo o pão da vida

aos que de vida são fartos.

 

E peço amor a algum beijo

gasto, cansado, caído,

que ia a destino e me bateu na boca.

 

- Há por aí farrapo pra vender?

 

Sou o dos olhos de mel...

Sou o menino dos luares doridos

que esteve nove meses de joelhos

a rezar o seu medo de nascer".

 

Voa no céu,

tão alto,

um pato bravo,

agora, no silêncio

do deserto e das almas que se fecham.

 

O vento servo dos deuses,

certeiro o gume da faca,

mete-lhe o vôo entre fatias de ar:

um "hors d`doeuvre" de apetite

para os papões demiurgos

dos caminhos para Ser.

 

- Pronto! passou!

Prossiga esse banquete!

 

O guisado de sóis vem para a mesa.

Continua o roer da Eternidade.

 

 

In "Sete Luas", 2ª Edição, Editorial Inquérito

Lisboa - Maio de 1954

 

DO NOSSO AMOR


Maria João Brito de Sousa

09.03.09

 

 

 

Amor! Que doce é a vida de quem ama!

- De perto são os beijos e os abraços;

De longe a saudade, que é uma chama,

Como de estrêla que nos guia os passos.

 

Que bem me sabe a graça do teu nome!

(Como cantiga de água pelo Agosto)

-Faz-me alegria a dôr que me consome

E é manhanzinha á hora do sol-posto!

 

Humilde, o meu orgulho é ter amado

Nos teus olhos mortais a luz dos céus

- Nem sei se tanto amor será pecado!...

 

Pecado!? - E á minha prece comovida,

Ouvir dizer, baixinho, a voz de Deus:

- Para quem ama assim, bemdita a vida.

 

Coimbra, Natal de 1925

 

 

Poema, com a grafia original, retirado de um folheto da Tuna Académica da Universidade de Coimbra, impresso na tipografia União em 1927.

BOLAS DE SABÃO


Maria João Brito de Sousa

01.03.09

Frágeis,

os meus minutos são

como bolas de sabão

coloridas e ágeis!

 

Quem as faz,

não sei porquê, afinal,

- se por meu bem ou meu mal -

é o mesmo que as desfaz...

 

Quedo-me a vê-las,

enquanto o vento balança

com espantos de criança;

choro, às vezes, de perdê-las!...

 

Que lindas cores! Quem há-de

não ter inveja de ser

êsse que as sabe fazer

em verdadeira verdade!?

 

Bolas de espuma

tal e qual como os mundos!

Duram, em vez de séculos, segundos,

mas a massa é tôda uma...

 

Esta, coitada!

tocou-lhe o Amor com o dedo,

morreu de mêdo

ou envergonhada.

 

Essa desfez-se ao pêso

dum chôro que não chorei...

Aquela é o reino do rei

do meu orgulho e desprêzo...

 

Leves e dobram-me os ossos

marcam-me a carne, destroem

certezas que se constroem

de rezas e padre-nossos!

 

Vejo-as sumir-se, nem sei

para onde ou para quê.

-É certo o que a gente vê?

Foram-se elas e eu fiquei?...

 

 

 

In "Caminhos", 1933

 

Imagem retirada da internet

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