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antoniodesousa

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Amigos! Eis aqui o dos olhos de mel! O Poeta!

.MJoão Sousa

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LENDA DO PATO BRAVO


Maria João Brito de Sousa

28.01.10

 

Pato bravo.jpg

 

Voa no céu

- tão alto! -

um pato bravo

e a onda do seu grito

rola no sangue vivo do poente:

 

"Suam-me versos estas noites velhas

que me descem dos olhos,

lá do fundo,

onde é, talvez, o coração que vê.

 

Digo ao que vem á frente dessas horas.

- aqui viver ou morrer,

mas devagar!

E grito o meu orgulho a sete luas mortas...

 

Depois, gran-duque e senhor

e rei de um reino de pedir às portas,

choro

e esmolo o pão de vida

aos que de vida  vão fartos.

 

E peço o amor a algum beijo

gasto, cansado, caído,

que ia a destino e me bateu na boca.

 

- Há por aí farrapo pra vender?

 

Sou o dos olhos de mel...

Sou o menino dos luares doridos

que esteve nove meses de joelhos

a rezar o seu medo de nascer."

 

Voa no céu,

tão alto,

um pato bravo,

agora, no silêncio

do deserto e das almas que se fecham.

 

O vento servo dos deuses,

certeiro o gume da faca,

mete-lhe o vôo entre fatias de ar:

um "hors d`oeuvre" de apetite

para os papões demiurgos

dos caminhos para SER.

 

- Pronto! Passou!

Prossiga esse banquete!

 

O guisado de sóis vem para a mesa.

Continua o roer da Eternidade.

 

António de Sousa

 

 

In "Sete Luas",  Editorial Inquérito

Lisboa, 1954.

ESCONJURO


Maria João Brito de Sousa

14.01.10

BEM sei!

- É só estender a mão,

dizer amén, e sou rei!

[tenho talento que sobre

e um sangue no coração

que não é azul mas é nobre.]

 

Dizer amén

e acudir na hora H.

[a um homem não fica bem

andar de cá para lá,

e a gente vale o que tem

pelo que dá.]

 

Tenho talento!

Quando penso é sempre em verso:

sou um poço de sentimento!

Mas ficou-me desde o berço

este receio do incerto...

Herói, sim! mas encoberto...

 

- E o céu?

- O céu que eu entendo

[e quem diabo mo deu?]

são uns lábios de mulher

e uma mentira qualquer

que me dão e a que me rendo.

 

Dividido,

porque procuro um sentido

e pergunto a toda a gente:

- É a vida que me mente

ou eu que estou impedido

de ser verdadeiramente?

 

Na perdição que me guia,

inquieta, vaga, distante,

a verde luz da alegria

vem e vai... passa adiante...

beija-me os olhos, às vezes,

para lá dos meus revezes.

 

E ainda rezo

e tateio como um cego,

aquela noite sem nome

- noite que temo e que nego! -

do medo que me tem preso.

E espero.

 

Espero,

não a riqueza do mundo,

nem a glória, que não quero,

nem essa voz do Profundo

que é sonho e arte e beleza!

Eu espero outra certeza:

encontrar-me! SER, enfim,

aquilo para que vim

a este mundo, senhores!

Ser eu sem esta saudade,

sem incertezas nem dores:

ter-me todo em liberdade!

 

 

In "Sete Luas", 1954

PENITÊNCIA


Maria João Brito de Sousa

13.01.10

Este viver de líricas fragrâncias

faz-me corar,

lá, onde a minha alma é toda-a-gente

como Deus manda.

 

Nas pálpebras a lágrima - o aljôfar,

como se diz no bem falar romântico;

dentro, a secura nua e crua dos desertos

onde não há sombra nem pão.

 

Ponho a minha casaca de cometas,

a ígnea farda de falar às musas,

e olho os esfarrapados

com literária piedade e o coração calado.

 

Caridade, perdão; Rainhas Santas

de palavras a passar na procissão das frases

e, se me tocam na pele,

fecho-me rápido como os dedos no cabo de um punhal.

 

Assim, estar assim, dói!

(neste doer de pôr em rezas...)

- Vamos! Quero o caminho de Estar para Ser;

talvez esta hora traga a da feliz viagem!

 

Esta hora!... a minha última descoberta:

terra fiel de paraíso ou horta?

Se vem chuva do céu, no céu me espero?

Se há água só nos poços, sobe ou desço?

 

Triste Vasco da Gama

no Mar das Trevas das perguntas velhas,

gastas, regastas, roídas

como cachimbos em segunda mão!

 

Ai, um pouco do travo do Eclesiastes!

- Vanitas vanitatum! (em latim

estas coisas ressoam bem melhor...)

enfim! Rei ou Poeta - figura de passar.

 

Confesso: não me confesso

para que me cuspam filosofias e saberes.

Quero a certeza de abraçar irmãos

para ser e sermos antes que a morte venha!

 

Quero o que negue em nós

o animal raivoso, a besta impura;

mas não quero o pecado de não ter pecados

enquanto houver pecadores.

 

 

In "Sete Luas", Lisboa, 1954 - 2ª edição

 

 

Imagem retirada da internet

OS "ACASOS" DA BLOGOSFERA


Maria João Brito de Sousa

07.01.10

 

 

 

 
 
A UM POETA-SENHOR
 
-Miguel de Sousa Azevedo

Soube um dia, há idos anos,
que uma Alma, nortenha e fugidia,
tinha em tempos passado
p'la "Presença", onde tantos
dedos célebres, de acérrimos
defensores de direitos e poder,
pintaram as letras da cor-do-Mundo.

Certa noite, em Descoberta,
mergulhei, em "Livro de Bordo",
num mundo de sonetos e rimas,
cujas paragens ou
simples cais de descanso,
cujas mensagens ou
simples marés em balanço,
me fizeram por vezes
tremer, em nome dos
Cabos das Descobertas que
em mim já tinha feito.

Lembro então uma visita,
ao quarto ano de vida,
e que o escuro da memória
só deixa passar em imagem,
em que a Forte figura lá estava,
um tanto acabada,
mas bela, imponente e barbada,
pela cintura, e em mim
subiu ao coração
Linhas e letras de folhas,
amarelas pelo tempo, li e reli
desde então
Um forte impulso de querer
virar o tempo é a linha
constante e a fusão
Do amor pelos outros com a

incompreensão...
o reconhecimento das obras,
não é nunca, por si só,
o verdadeiro indício
daquilo que um Homem vale.
Vou querer-te sempre, como foste
Tio António de Portucale

Porto, 26-OUT-1998

(Este Poema escrevi-o em lembrança do meu Tio-Avô materno António de Sousa. Um dos Homens da "Presença" e um dos menos lembrados geniais poetas deste país...)

 

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