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antoniodesousa

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Amigos! Eis aqui o dos olhos de mel! O Poeta!

.MJoão Sousa

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TORRE DA MÁ HORA


Maria João Brito de Sousa

17.12.09

 

Não, meu menino! Não é aqui!

 

Tu vens ao jogo da vida

com essa avidez perfeita,

como um bambino a mamar:

- que denúncia os teus olhos de poeta!

 

Não, meu menino! Não é aqui!

 

Esta lareira já nem lembra o fogo.

- Berços? - só o vai-vem das artérias

contando passos de morte

como o caruncho que rói.

 

Esta Bela Adormecida

é alma sem salvação

e os príncipes partiram

quando o luar secou.

 

- Beijos? - Só esta fome sem remédio

como o pecado da gula.

[O amor não é ser amado:

é amar!]

 

Não, meu menino! Não é aqui!

 

Aqui só acre das lágrimas

na face arada de rugas:

as lágrimas ferozes e gratuitas,

sem perdão nem esperança.

 

 

In "Sete Luas", 2ª Edição, Lisboa, 1954

 

Imagem - Fotografia de Isabel França, retirada da internet

REQUIESCAT


Maria João Brito de Sousa

04.12.09

 

DEIXEM-NO!

Deixem o triste senhor de olhos em alvo

e boca trémula,

desgrenhar-se,

coçar a caspa lírica dos revoltos cabelos milenários.

 

Deixem-no, à beira-mar plantado,

olhos nos longes do cenário,

turvos e longos, pingando,

nas longas, longas mãos, longas e pálidas.

 

Não lhe falem!

- A sua voz é um ressumbro de fados,

um tilintar de vidrilhos,

cisco do verbo que foi dado ao Homem.

 

Deixem-no a ler as cartas de namoro

das Lauras e das Elviras:

um ópio de amor em branco

à hora em que é preciso ser tão vivo como a luz!

 

Deixem-no!

Deixem o astrólogo e vizir

das mil-e-uma-noites-de-luar

alheio ao fogo das horas.

 

Sabe-lhe a céu o seu cheiro de morte,

mas nós temos olfacto:

farejamos a vida em espírito e Verdade.

 

O caminho é por aqui!

 

 

in "Sete Luas", Lisboa, 1954

HISTÓRIA ANTIGA


Maria João Brito de Sousa

02.12.09

 

O mundo tinha outra vez

começado.

O céu estava pedrês,

zunia um vento danado,

vulcões espumavam fogo

e o mar fazia regougo

como um leão esfaimado.

 

Rangiam,

gemiam

as portas do paraíso,

com estrelas em "fingidos".

(Céu e Terra divididos

até ao Dia do Juízo!)

 

Eva perdera os sentidos

e a serpente do mal,

toda enroscada num galho

da macieira fatal,

assobiava,

imitava

a fúria do temporal.

 

Adão

não fora ganhar o pão,

não suava no trabalho:

estava sentado no chão,

tão alheado de tudo

que parecia tonto e cego,

surdo e mudo como um prego!

(dir-se-ia que nem sabia,

pela milésima vez,

que era outra vez o primeiro

dos homens

e o derradeiro)

 

A Terra tremia toda,

os raios, de uma assentada,

rachavam montes em três!

E ele... nada!

 

.........................................

 

- Bem antes da Idade Média,

fui testemunha de vista

desta singular tragédia.

Mas, desde então para cá,

andei por tanta conquista,

por terras de Bem e Mal,

que não me recordo já

se já lhe soube o final...

 

 

 

António de Sousa 

 

In "Sete Luas", Lisboa, 1954 - 2ª Edição

APÓLOGO


Maria João Brito de Sousa

05.11.09

 

Todos olharam para o lado;

ele passou, encolhido,

envergonhado, calado

como um rato perseguido.

 

Entanto o sol revelava

outros dias, outra idade,

em que a mentira passava

sua passada verdade.

 

E vai um deus, condoído

de o ver assim decadente,

pintou-o doutro sentido

para o mandar para a frente.

 

Para a frente era um aquário

com um bocado de mar

e um letreiro extraordinário:

- Aqui é O Nunca Acabar!

 

Coitado!

Caiu na água como um peixe,

pôs-se a nadar com fervor

e já não há quem se queixe:

pode viver sossegado

por trás do vidro de cor.

 

 António de Sousa

In "Sete Luas", 2ª Edição

Lisboa 1954

 

 

Imagem retirada da internet

SONATA III


Maria João Brito de Sousa

16.10.09

 

 

                  3

 

Amor!

Em ti me colho de surpresa

e sou a flor, em silêncio interdita,

ante os olhos de Deus onde Ele é amor.

Mal sonhados ideais que em mim dormitam,

acordam irmanados com o mundo

e eu desfolho-me e entrego-me, feliz,

ao sonho que me quer e me perdoa.

Amor!

Em ti me colho de surpresa,

saio de mim - asas minhas de pedra

 e de nocturnas penas me solevam

transformadas em rémiges de fogo!

Saio de mim. Asas minhas me levam

sobre os meus idos passos

à fonte da manhã originária

- lá onde as águas, como o sangue, estuam

a força de viver.

 

Aleluia! Aleluia! Ó sol pagão!

Ó sol cristão ressurgido dos mortos!

Ó sol-pai a fecundar a Terra!

Ó sol-mãe de si mesmo gerando!

Alegria de ser!

Alegria de estar!

Alegria da morte

para mais luz depois!

Depois! Depois! Depois!

 

 

In "Linha de Terra", Lisboa, 1951

 

Imagem retirada da internet

 

SONATA II


Maria João Brito de Sousa

15.10.09

 

          2

 

Mesmo quando a manhã canta em hosanas,

uma dúbia ternura me desdobra

num pálio de poentes sobre a vida

dos que lutam e sangram sua fé.

Tudo o que posso dar sabe a tristeza,

a um adeus que é renúncia e desespero.

Se me rio é de mim, à minha sombra

sumida como um hálito lunar.

As lágrimas são caras na velhice

e eu já nasci velho.

Eu nasci velho como um deus cumprido

que quisesse ser homem

sem saber

que nem um deus é homem quando quer!

(Deus cumprido e frustrado - oh cósmica pilhéria! -

é de mim que me rio à minha sombra,

é por mim que canto a minha voz,

é a mim que me fujo mnos terreiros

ou nos becos da Vida!)

 

Um fantasma de sonho, riso e pó,

mas cortado de dores como um parto de astros,

eis-me tal qual me vejo

neste espelho que fala como gente:

um mistério e uma história-de-café!

 

 

in "Linha de Terra", Lisboa, 1951

 

SONATA


Maria João Brito de Sousa

14.10.09

  

 

                              1                              

 

 

Ando a espalhar, ao vento vário, uns sonhos

tão pobres e cansados

que só os pobres pobres como eu

- até de mim o sou ... -

lhes falam n`alma.

Uns sonhos mortos-vivos

onde a lua ainda é madre de poesia

e o mar e o céu jogam ondas e estrelas,

no regaço da noite, às escondidas.

 

Pesado de remorsos

dumas horas bravias e carnais,

pigarreando entre esboços de rezas

aguados versos,

ando a espalhar, ao vento vário, uns sonhos.

Semeador mal-parado neste mundo,

tudo me diz que é outra a minha leiva.

Mas o caminho certo, quem o sabe,

aonde nem os santos o calcaram

livres de enganos e visões de medo?

 

 

In "Linha de Terra", Lisboa, 1951

LINHA DE TERRA - Poema Introdutório


Maria João Brito de Sousa

22.09.09

"As a friend once said to me

the spirit of delight comes often

on small wings."     Robert Louis Stevenson

 

 

Perdida a vela de estái,

todo o massame em apuros,

fiados sete esconjuros,

trouxe o navio a querena

a esta praia pequena.

 

Depois,

não sei se volte a embarcar,

se compre uns bois

e me meta a lavrar...

Sei que em mim quebra um mar

a sol e luar

e Deus é Pai!

ADITAMENTO


Maria João Brito de Sousa

11.09.09

                                  "Ponho a minha casaca de cometas,

                                   ígnea farda de falar às musas..."        

                                   Sete Luas, António de Sousa

 

 

 

Minha velha casaca de cometas,

a ígnea farda de falar às musas,

atravessaram-na as setas

dumas horas pontudas e confusas.

 

Não me serve. Ninguém a quer. Nem mesmo o prego.

(fui lá à meia-noite e nem a porta abriram...)

Agora faço versos vestidos de nó-cego

dumas verdades que mentiram.

 

Não fosse o teu amor, Menina-Triste,

calava-me ou pedia desculpa

de quanto de poeta em mim insiste.

Se continuo, é tua a culpa!

 

 

In "linha de Terra", Lisboa, 1951

 

Imagem retirada da internet

MALOGRO


Maria João Brito de Sousa

20.08.09

Quando a hora passou dei-lhe um tiro no peito.

(de raiva ou de ciúme?)

O sangue não correu. Era de lume

e opaco, ao mesmo tempo, aquele peito.

 

A hora que passou

e me passou,

morta-viva em meus braços - que delícia!

O nosso mundo e nós dois!

 

Depois...

desceu do Céu a polícia.

 

 

In "Linha de Terra", Lisboa, 1951

 

Imagem retirada da internet

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