Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

antoniodesousa

antoniodesousa

Amigos! Eis aqui o dos olhos de mel! O Poeta!

.MJoão Sousa

Cria o teu cartão de visita

ACERCA DE ANTÓNIO DE SOUSA (continuação II)


Maria João Brito de Sousa

12.06.09

 

 

 

 

 

 

 

Poemas breves e rápidos, como convém, como julgo ser melhor para quem lê e para quem escreve. Aquelas longas e demoradas poesias que no passado fizeram a sua época, caíram em desuso, felizmente. Dispersavam a ideia de quem escrevia e fatigavam o leitor. Porque o poeta, do princípio ao fim de cada poema o mantinha na mesma altura, cercado de felizes imagens, numa intensidade que não esmorecesse, o que era difícil, ou então, para cada verso onde mais se evidenciasse a emoção, apareciam dez ou doze que nada a aqueles acrescentavam e serviam apenas para diluir ou mesmo apagar o fim em vista por quem os escrevia. No novo caminho seguido - a vida é breve e exige brevidade em tudo aquilo que a cerca - uma ideia cabe em meia dúzia de versos.

E quando não, veja-seo que acontece com "Linha de Terra". Sessenta e três páginas encerram trinta e duas poesias. O que nessas poesias se encontra, se fosse nos velhos tempos do estafado lirismo em que o poeta tinha a intenção de se mostrar bom metrificador e manejador de rimas, encheria duas centenas de páginas, pelo menos.

 

 

A MORTE DO ENCANTADO


Maria João Brito de Sousa

31.03.09

Calou-se - bebeu-a a noite -

aquela fonte encantada

que me ensinou a cantar.

Calou-se: bebeu-a a noite

que nunca tem madrugada

nem rouxinóis ao luar!

 

Agora fiquei só eu

e a cinza do meu cigarro

e os livros da minha estante.

agora fiquei só eu:

- Triste boneco de barro

que tivesse alma um instante!

 

Sòzinho choro de bruços,

rojado às pedras da estrada,

saudades nem sei de quê...

sòzinho choro de bruços...

Sou uma estátua quebrada

dum deus em que ninguém crê.

 

Fui um menino prodígio,

incêndio, língua de chama,

pastor de estrêlas e sóis!

- Agora sou um vestígio,

uma pègada na lama

para os que vêm depois...

 

Calou-se tudo; nem ouço

o relógio dos meus versos:

as artérias a pulsar...

a noite... o fundo dum poço...

e, como troncos submersos,

meus ossos a tiritar!

 

Calou-se - bebeu-a a noite -

aquela fonte encantada

que me ensinou a cantar.

Calou-se - bebeu-a a noite,

a que não tem madrugada

nem rouxinóis ao luar!

 

 

In "Caminhos", 1933

 

Nota - Todas as transcrições mantêm, neste blog, a grafia original

LENDA DO PATO BRAVO


Maria João Brito de Sousa

19.03.09

 

Voa no céu

- tão alto! -

um pato bravo,

e onda do seu grito

rola no sangue vivo do poente:

 

"Suam-me versos estas noites velhas

que me descem dos olhos,

lá do fundo,

onde é, talvez, o coração que vê.

 

Digo ao que vem à frente dessas horas:

- Aqui, viver ou morrer,

mas devagar!

E grito o meu orgulho a sete luas mortas...

 

Depois, gran-duque e senhor

e rei de um reino de pedir às portas,

choro

e esmolo o pão da vida

aos que de vida são fartos.

 

E peço amor a algum beijo

gasto, cansado, caído,

que ia a destino e me bateu na boca.

 

- Há por aí farrapo pra vender?

 

Sou o dos olhos de mel...

Sou o menino dos luares doridos

que esteve nove meses de joelhos

a rezar o seu medo de nascer".

 

Voa no céu,

tão alto,

um pato bravo,

agora, no silêncio

do deserto e das almas que se fecham.

 

O vento servo dos deuses,

certeiro o gume da faca,

mete-lhe o vôo entre fatias de ar:

um "hors d`doeuvre" de apetite

para os papões demiurgos

dos caminhos para Ser.

 

- Pronto! passou!

Prossiga esse banquete!

 

O guisado de sóis vem para a mesa.

Continua o roer da Eternidade.

 

 

In "Sete Luas", 2ª Edição, Editorial Inquérito

Lisboa - Maio de 1954

 

BOLAS DE SABÃO


Maria João Brito de Sousa

01.03.09

Frágeis,

os meus minutos são

como bolas de sabão

coloridas e ágeis!

 

Quem as faz,

não sei porquê, afinal,

- se por meu bem ou meu mal -

é o mesmo que as desfaz...

 

Quedo-me a vê-las,

enquanto o vento balança

com espantos de criança;

choro, às vezes, de perdê-las!...

 

Que lindas cores! Quem há-de

não ter inveja de ser

êsse que as sabe fazer

em verdadeira verdade!?

 

Bolas de espuma

tal e qual como os mundos!

Duram, em vez de séculos, segundos,

mas a massa é tôda uma...

 

Esta, coitada!

tocou-lhe o Amor com o dedo,

morreu de mêdo

ou envergonhada.

 

Essa desfez-se ao pêso

dum chôro que não chorei...

Aquela é o reino do rei

do meu orgulho e desprêzo...

 

Leves e dobram-me os ossos

marcam-me a carne, destroem

certezas que se constroem

de rezas e padre-nossos!

 

Vejo-as sumir-se, nem sei

para onde ou para quê.

-É certo o que a gente vê?

Foram-se elas e eu fiquei?...

 

 

 

In "Caminhos", 1933

 

Imagem retirada da internet

CAMINHOS


Maria João Brito de Sousa

01.02.09

Caminhos desertos

da noite calada,

caminhos incertos

da minha morada.

 

Caminhos sòzinhos

das minhas quimeras,

com aves e ninhos

e rastros de feras!

 

Caminhos sem norte,

caminhos de encanto,

com cruzs de morte

e passos de santo!

 

Caminhos de um nome

que um anjo perdeu!

Areias da fome!

Oásis do Céu!

 

Caminhos perdidos

na serra e no val`

com frutos caídos

do Bem e do Mal!

 

Caminhos regados

com prantos de dor;

caminhos juncados

de beijos de amor...

 

Estradas sem leito,

profundas barrancas

e curvas a jeito

de seios e ancas!

 

Caminhos cruzados

- Imensos rosários -,

caminhos gelados

de estranhos calvários!

 

Caminhos abertos

a golpes, com ferros;

caminhos cobertos

de crimes e erros!

 

Caminhos perdidos

sem rumo e sem fim...

- Que cinco sentidos

me deram a mim!

 

 

 

In Caminhos, Lisboa, 1933

 

Imagem retirada da internet

 

 

LUAS


Maria João Brito de Sousa

24.01.09

Lá fora o luar é um vendaval de luz,

como este amor desvairado

que nasceu numa hora de pecado

e há-de morrer numa cruz!

 

Lá fora o luar é um dilúvio de alvura:

o teu corpo arripiado

quando o tenho nos braços enleado

e os teus olhos são lagos de ternura!

 

Hoje fiz-te chorar. Eas tão linda assim!...

(Lá fora o luar pela noite sem fim

é um duende a correr por montes e quebradas!)

 

São luas, sabes, meu amor? Desejos

de te ferir para beber, aos beijos,

as tuas doces lágrimas salgadas!...

 

 

In "Caminhos", Lisboa, 1933

 

Imagem retirada da internet

CARTA DE LONGE


Maria João Brito de Sousa

04.01.09

                                                              Pöertchasch-am-See

                                                              Austria - Maio, 1923

 

Minha adorada mulher:

Aqui vão em duas linhas,

As saudades que adivinhas.

Tantas que nem sei dizer!...

 

Ando por terras estranhas,

longe do meu Portugal.

Atravessei rio e val`,

terra chã e altas montanhas

 

Mas onde quer que passei

achei-me sempre sòzinho:

lembrei-me sempre do ninho,

da rôla que lá deixei.

 

Este sol que me alumia

é triste, nem dá calor:

não é como o teu amor

que é sol de noite e de dia.

 

O céu é mais desmaiado

e assim a modos de estranho.

Inda não vi um rebanho

nem um pastor de cajado.

 

Moro à beira dum lago

de águas mansas como escravas...

Antes quero as ondas bravas

do mar que nos olhos trago!

 

No pálio que se descerra,

de tanta côr! às tardinhas,

eu procuro as andorinhas

que vêem da minha terra

 

E as andorinhas amigas,

nas curvas que vão traçando,

parece que estão marcando

voltas das nossas cantigas...

 

...Adeus minha companheira

das minhas dores e alegrias!

- Agora e todos os dias

seja Deus à tua beira!

 

E, lá do alto do céu,

te dê graça ao teu desejo!

Mando-te a alma num beijo

do teu António, só teu.

 

 

In "Caminhos", Tipografia da Seara Nova, Lisboa, 1933

 

Vinheta da Capa de Diogo de Macedo

FADÁRIO


Maria João Brito de Sousa

17.12.08

Noite na cama. Sonho. Bons sapatos velhos

para os calos da alma,

e lá vou de viagem

ao fundo da minha vida!

 

Vou ficando. - O melhor gôsto

da preguiça predestinada

que não curam médicos nem rezas.

 

Deixo pelo caminho o fato puído

das sete-luas com poeiras estelares;

que é uma vergonha andar assim, agora,

entre automóveis, aviões e engenharias!

 

(Lave-se quem cheira a passado,

antes que o varram para o lixo os demiurgos

- os do Homem Nôvo, científico e total.)

 

Trago na bagagem cumprimentos

- Ora essa; pois não!?... para tôda a gente,

respeito, consideração e frasquinhos bonitos

com cheirinhos para as namoradas.

 

Venho muito mais senhor-doutor,

para ir ao escritório, estar à espera

de quem compre certezas baratas.

 

- Muito bons dias! - Isto é o que eu trago.

(pròpriamente a viagem,

não sei como é, tenho-lhe mêdo!

Mas volto lá amanhã, se Deus quiser

e me não roubarem o passaporte...)

 

 

In "O Náufrago Perfeito", Coimbra, 1944

 

Imagem retirada da internet

ABRAÇO DE COMETA!


Maria João Brito de Sousa

21.09.08

 

Olá avô! Pelo sim, pelo não, venho deixar-te o meu abraço de cometa.

O "nosso" abraço de cometa.

Pode ser que ainda venha publicar mais alguns poemas dos teus livros, mas também pode acontecer que o não possa fazer. Pode ser que volte mais tarde. Não sei quando. Nunca sei quando...

Às vezes sou um bocadinho amarga, como tu, mas tu sabes que, de uma maneira geral, procuro manter-me em contacto com o mundo. Nem sempre é fácil e, por vezes, é mesmo impossível. Aos poemas, a esses não os largo! Nos cadernos, nas paredes, se não houver dinheiro nem para papel, mas esses irão continuar! Comigo. Connosco. Como o fio-de-prumo da nossa vida. Abraço de cometa!

 

 

O NÁUFRAGO PERFEITO


Maria João Brito de Sousa

16.09.08

 

O Dr. António de Sousa, que já havia dado à estampa, de 1918 a 1943, cinco obras em verso - "Cruzeiro de Opalas", "O Encantado", "Caminhos", "Ilha Deserta" e "Sete Luas" -deu, pouco há, a público, novo livro que significativamente intitulou de "O Náufrago Perfeito" e a Atlântida de Coimbra editou em gracioso volume.Poeta autêntico, por cujo estro fecundo perpassa toda a gama de emoções humanas, António de Sousa, de quem não conhecíamos as obras anteriores, exprime a sua mensagem poética com uma originalidade e uma frescura que sugerem, por vezes, Cesário Verde. Cultivando, quási sempre, os ritmos clássicos, o poeta constrói os seus versos ao sabor de uma inspiração que se mostra espontânea e robusta. Díficil, senão ímpossível, filiar os versos de António de Sousa em determinada escola,pois, se esta composição se assinala pelo seu alor romântico, aquela caracteriza-se pela objectividade naturalista. Ao mesmo tempo que o sentimentalismo se expande em composições de expressão -digamos assim - tradicional, a sátira, o sarcasmo, a ironia, o apontamento crítico e intencional trabalhados por processos muito pessoais, mostram outra das facêtas do espírito do poeta, manifestamente rico e pródigo. Acima de tudo, porém, salienta-se a maneira de ser, verdadeiramente moderna, que o poeta exprime na na maior parte das suas composições. A beleza formal, notável em todos os seus versos, deixa transparecer a beleza essencial, que é, na poesia moderna, o que mais importa e se recomenda. Algumas das concepções do poeta são francamente arrojadas, mas é inegável que um forte e ardente sôpro de vida areja todos os versos de "O Náufrago Perfeito". As composições pertencentes a "Céu Fechado", primeira parte da obra, são, talvez, as mais interessantes, pelo jogo das ideias e palavras, sempre brilhante e atraente. Contudo, nas composições da segunda parte, "Terra de Sombra", António de Sousa faz lembrar, aqui e ali, Camilo Pessanha, o que vale por dizer que a sua poesia acusa um timbre invulgar e fino.

 

In - "O Comércio do Pôrto", 26.10.1945

       (artigo não assinado)

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2011
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2010
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2009
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2008
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D