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antoniodesousa

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Amigos! Eis aqui o dos olhos de mel! O Poeta!

.MJoão Sousa

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DUALIDADE


Maria João Brito de Sousa

16.02.17

006.jpg

 O vento - esse frade rouco -

foi quem disse: - Vem daí

e terás, só para ti,

o forro do meu bioco!

 

E eu fui o vento, por pouco!

Cobri-me de asas, parti

para um céu onde vivi

horas de santo e de louco.

 

(Oh, meu extâse de imagens!

Naufrágios de alma! Destroços!

Abismos! Vagas miragens!)

 

Voltei num corpo de chama,

mas as palavras são ossos;

Poeta, é este o meu drama!

 

António de Sousa

 

In "LIVRO DE BORDO" , 1ª Edição, Editorial Inquérito

MEA CULPA, MEA MAXIMA CULPA!


Maria João Brito de Sousa

03.12.08

 

Aos seareiros da Seara Nova - aos mortos e aos vivos.

 

Memorando Álvaro de Castro e Agostinho de Campos

 

 

...Dias sem sol e noites sem luar.

Tantos mendigos a bater às portas!

Sombras e um vago aroma a flores mortas:

- Aqui foi Portugal, senhor do Mar.

 

Aqui foi Portugal. - E agora? - Um sonho,

fumo, poeira, as árvores sem fruto,

e um coro de mulheres, todas de luto

- um coro negro - ao meu amor, tristonho.

 

Aqui foi Portugal... - E agora? - Um nada!

Pragas, delírio, a terra amortalhada

de fria cinza e baça luz sonãmbula.

 

... Assim viram meus olhos de vaidade,

até que ouvi o grito da Verdade:

- O morto és tu, Lázaro! Surge et ambula!

 

 

In "Livro de Bordo", 2º EDIÇÃO, 1957

 

 

"lANDSCAPE" - Amedeo Modigliani

Imagem retirada da internet

 

 

 

RUGA


Maria João Brito de Sousa

26.11.08

 

                                                         Memorando Álvaro Pinto.

                                                         A João Castro Osório.

 

Eu não me sei: ando a enganar a vida

e  sou de amor ao luar desta negaça!

(Mesmo na voz de uma canção perdida

cabe um indício da divina graça.)

 

Mas não deites mais sonho, mão de Deus!

no vago deste velho coração.

Quero certeza como luz dos céus

e diga meu destino sim ou não.

 

(Cabelos brancos dão negra colheita

à fome que subiu de há tantos anos.)

 

- Peregrino de sombras e de enganos,

porque pedes verdade a padres-nossos

no deserto de gelo dos teus ossos?

 

 

In "Livro de Bordo", 2º edição, 1957

 

Imagem retirada da internet

 

 

ACORDES


Maria João Brito de Sousa

05.11.08

 

                                    Ao Miguel Torga e à Andrée Crabbé Rocha

 

Quando a estrela começou a cantar

já ele tinha cabelos brancos,

o lábio duro e as unhadas do tempo

na cera fria da face.

 

Uma canção angélica, de paz,

verde como essa luz do amor primeiro.

Embebia-se dela a noite mansa

e tudo esperava uma revelação.

 

Ele ouvia-a pelo ouvido direito

(ao esquerdo um mar de trevas cachoava),

guardando os olhos inquietos

nas pálpebras cerradas.

 

Quando a estrela começou a cantar

já era ao pobre o coração de ferro.

Mas os dedos subtis da melodia

abriram nele uma flor de luar.

 

 

In- "Livro de Bordo", 2º edição, 1957

ENCONTRO


Maria João Brito de Sousa

25.09.08

Marinheiro dum céu que me perdera,

com sete luas ao luar de Outono,

dos meus sonhos nenhum te concebera

nem te cantava a minha voz sem dono.

 

Adormeci. As tuas mãos de cera

desfolharam carícias no meu sono

e Deus, que da minh`alma se esquecera,

de teus beijos floriu este abandono.

 

Adormeci. À hora da partida,

à luz que os fortes bebem como vinho,

adormeci, para fugir à vida.

 

Vieste. Sei agora porque sou:

era sonhar - não ser - o meu caminho.

Fugi à vida - a vida começou.

 

In - "Livro de Bordo" , 2ª edição

       Publicações Europa-América, 1957

 

Imagem - Ilustração de Manuel Ribeiro de Pavia

 

SEGUNDA CARTA DE LONGE


Maria João Brito de Sousa

29.08.08

 

MANUEL RIBEIRO DE PAVIA MORREU A 19 DE MARÇO DE 1957, DIA EM QUE FEZ 47 ANOS.

 

Manuel Ribeiro de Pavia:

Esta carta é para ti.

SEGUNDA CARTA DE LONGE.

A primeira-há quantos anos!-

foi para minha mulher,

então confiante e jovem,

hoje a Mãe do meu filho mais novo

e Avó de sua filha

e um pouco minha Mãe.

 

(-Tu, Velhinha querida,

não tens ciúmes, não?)

 

Manuel de Pavia:

Em espírito e verdade,

numa hora crepuscular da minha vida,

- Não sei por que milagre

mais velho de tão novo-

foste o meu último irmão.

 

Não da carne e do sangue

mas de um sonho estelar

"romântico e pungente"

cortado de sarcasmo

ou de magoadas lágrimas

- em ti, inconfessadas,

em mim, secas ao vento.

 

O meu último irmão.

 

Partiste,

para Lá, para onde?

De longe é que te escrevo.

 

Já encontraste aí

- nesse onde estás, que estás -

minha irmã?

(Menina Branca

fugida aos trilhos da terra

antes que esta lhe desse os seus venenos)

E meu pai, o Meu Velho?

Já lhe falaste de mim?

Deste-lhe notícia do meu renovo,

dos meus pequenos triunfos?

(Discreto e nobre,

sei que não lhe disseste

a tua parte neles.)

 

Contaste-lhe da sua bisneta,

da tua infantil camarada

que te fez num retrato

com pernas de légua e meia

e que desenha Anjos muito melhor do que tu?

Descreveste-lhe esta casa

que tu honraste com a tua presença

sempre tão desejada

e requerida à tua esquiva reserva

e afinal concedida

com a alma e o coração abertos?

 

Manuel de Pavia:

 

Segunda Carta de Longe,

esta carta é para ti.

 

(Os outros que me lerem

assistem, de testemunhas,

mais ou menos presentes,

mais ou menos fiéis.)

 

Amigo!

No teu orgulho heróico,

sei que não quiseras que te chore

e, se te choro, é por mim.

 

Mesmo assim,

dorido,

mais velho de repente

e mais só,

tenho de te dizer

(e não sei se me escutas)

que não quero

e não hei-de

separar-me de ti.

 

Tenho de prometer

(é a Deus ou a quem?)

que ficarás em mim,

num ditame de esperança

ao melhor do meu ser.

(Tal como tu quiseras.

Esse, um dos teus dons:

despertar os dormentes.)

 

Tenho de te dizer

que a tua obra, VIVA,

será sempre (o meu sempre)

um aceno ao Poeta que em mim está.

Para que passe além

mais leal e mais puro,

ao serviço da Beleza e da Vida,

na alegria e na dor.

E ELE e eu - um Homem.

 

(Para o meu sempre Amigo e para nunca mais)

 

Algés, Março de 1957 às 22.31h

 

Imagem - Fotografia de Manuel Ribeiro de Pavia desenhando, em nossa casa.

 

In - "Livro de Bordo" (2º edição)

       Publicações Europa-América, 1957

 

 

 

 

 

O OUTRO LADO DA LUA


Maria João Brito de Sousa

08.06.08

 

Amigos! Aqui jaz

o dos olhos de mel, o dos sonhos, o poeta!

(caiu-lhe a noite de uma estrela preta

e deixaram-no em paz

as sete-luas que lhe davam corda.)

.

Calados, rezai por ele,

para que durma

e redurma.

Olhai que se Deus o acorda

e o mete na mesma pele,

não pode guardar segredo

do segredo em que fugiu

e vocês morrem de medo!

- Psiu!

.

In - Livro de Bordo, 1ª Edição, Editorial Inquérito,1950

.

Fotografia retirada da Internet

REGATA


Maria João Brito de Sousa

08.04.08

 

                                                                                    Memorando

                                                                                    Alice Freire F. de Oliveira

 

.

O rio é longo  os remadores são poucos

(cada qual leva ao lado os seus pecados):

uns vão gritando histéricos e roucos,

outros olham o céu como encantados.

.

Voam, no alto, uns avejões de agoiro;

do mastro escorre o sangue da bandeira;

o escudo - uma cruz e um astro loiro -

parece o par de tíbias e a caveira!

.

Que pesados os remos na água morta!

Que tristeza na voz do timoneiro!

- João Ninguém que fechou sua porta

e, afinal, se perdeu do mundo inteiro.

.

Vai ao leme e não sabe o seu destino,

mas o seu nome, agora, é Toda-A-Gente.

Ali tem seu lugar desde menino

e a carta de prego é: - Para a frente!

.

In - Livro de Bordo, Editorial inquérito, Lisboa, 1950

 

 

 

MAR MORTO


Maria João Brito de Sousa

06.04.08

Vida!

Ao destino dos homens

que mais sou eu para a amar

com esse amor impossível

que me abrasa e me regela

- onda rolada na alma,

prece nos olhos e sonho

em mim todo -

que me redobra e me toa

como um bordão em espasmos?

.

Que noite em mim quer ser dia

e que inferno ser o céu?

.

Porque se prendem a ti,

ó mão das minhas quimeras,

as mãos que pedem esmola,

as asas frustres, sem voo,

os cegos

e os desprezados

nas sombras dos seus pecados?

Almas e coisas que suam

sua mudez condenada,

porque me escolhem a mim

para eu falar por elas;

para que as diga esta voz

só de palavras quebradas

como lanças na derrota?

.

Menino-Desconhecido,

Senhor Deus! Quem me conhece

e me lavrou a sentença?

.

"Tu, desertor cobarde e mentiroso,

porque entregaste sem timbre

em feitiços de amor o teu condão?

Estrela de papel,

mago pintado em "clown",

histérico bufão,

vulcão de lodo,

de ti queremos apenas

a tua confissão.

.

A tua outra verdade

como o resto... é só vaidade.

Sim! Conhecemos-te bem,

traidor nosso e nosso irmão!"

.

In - Livro de Bordo, 1ª edição,

Editorial Inquérito, Lisboa, 1950

ACORDES


Maria João Brito de Sousa

19.02.08

Quando a estrela começou a cantar

já ele tinha cabelos brancos,

o lábio duro e as unhadas do tempo

na cera fria da face.

.

Uma canção angélica, de paz,

verde como essa luz do amor primeiro.

Embebia-se dela a noite mansa

e tudo esperava uma revelação.

.

Ele ouvia-a pelo ouvido direito

(ao esquerdo um mar de trevas cachoava)

guardando os olhos moles - moles moluscos -

nas pápebras cerradas.

.

Quando a estrela começou a cantar

já era ao pobre o coração de ferro.

Mas os dedos subtis da melodia

abriram nele uma flor de luar...

.

In - Livro de Bordo - 1ª edição, 1950

Editorial Inquérito

.

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