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Amigos! Eis aqui o dos olhos de mel! O Poeta!

.MJoão Sousa

Cria o teu cartão de visita

QUESITO


Maria João Brito de Sousa

03.09.08

 

 

 

- Ó flor,

quem te quer mais?

Este secreto sonho que me rói

e em poemas lavra terra e nuvens,

ou a paz que te deu,

amiga, a Vida,

nos beijos de outro, simples e leais?

 

(A quotidiana paz, longe de versos,

de demónios e de anjos

pintados de sorrisos e de lágrimas,

de saudades e rezas.

A quotidiana paz, longe de versos,

de mordidos desejos como chamas

e de meigas ternuras enleadas.)

 

- Quem te quer mais, amor?

(Escolha o céu por ti,

por nós,

que esta dor que me corta é eu saber

que não sabemos escolher!)

 

 

In - "Terra ao Mar", Editorial inquérito, 1954

 

Na fotografia - Cactos no meu atelier

SEGUNDA CARTA DE LONGE


Maria João Brito de Sousa

29.08.08

 

MANUEL RIBEIRO DE PAVIA MORREU A 19 DE MARÇO DE 1957, DIA EM QUE FEZ 47 ANOS.

 

Manuel Ribeiro de Pavia:

Esta carta é para ti.

SEGUNDA CARTA DE LONGE.

A primeira-há quantos anos!-

foi para minha mulher,

então confiante e jovem,

hoje a Mãe do meu filho mais novo

e Avó de sua filha

e um pouco minha Mãe.

 

(-Tu, Velhinha querida,

não tens ciúmes, não?)

 

Manuel de Pavia:

Em espírito e verdade,

numa hora crepuscular da minha vida,

- Não sei por que milagre

mais velho de tão novo-

foste o meu último irmão.

 

Não da carne e do sangue

mas de um sonho estelar

"romântico e pungente"

cortado de sarcasmo

ou de magoadas lágrimas

- em ti, inconfessadas,

em mim, secas ao vento.

 

O meu último irmão.

 

Partiste,

para Lá, para onde?

De longe é que te escrevo.

 

Já encontraste aí

- nesse onde estás, que estás -

minha irmã?

(Menina Branca

fugida aos trilhos da terra

antes que esta lhe desse os seus venenos)

E meu pai, o Meu Velho?

Já lhe falaste de mim?

Deste-lhe notícia do meu renovo,

dos meus pequenos triunfos?

(Discreto e nobre,

sei que não lhe disseste

a tua parte neles.)

 

Contaste-lhe da sua bisneta,

da tua infantil camarada

que te fez num retrato

com pernas de légua e meia

e que desenha Anjos muito melhor do que tu?

Descreveste-lhe esta casa

que tu honraste com a tua presença

sempre tão desejada

e requerida à tua esquiva reserva

e afinal concedida

com a alma e o coração abertos?

 

Manuel de Pavia:

 

Segunda Carta de Longe,

esta carta é para ti.

 

(Os outros que me lerem

assistem, de testemunhas,

mais ou menos presentes,

mais ou menos fiéis.)

 

Amigo!

No teu orgulho heróico,

sei que não quiseras que te chore

e, se te choro, é por mim.

 

Mesmo assim,

dorido,

mais velho de repente

e mais só,

tenho de te dizer

(e não sei se me escutas)

que não quero

e não hei-de

separar-me de ti.

 

Tenho de prometer

(é a Deus ou a quem?)

que ficarás em mim,

num ditame de esperança

ao melhor do meu ser.

(Tal como tu quiseras.

Esse, um dos teus dons:

despertar os dormentes.)

 

Tenho de te dizer

que a tua obra, VIVA,

será sempre (o meu sempre)

um aceno ao Poeta que em mim está.

Para que passe além

mais leal e mais puro,

ao serviço da Beleza e da Vida,

na alegria e na dor.

E ELE e eu - um Homem.

 

(Para o meu sempre Amigo e para nunca mais)

 

Algés, Março de 1957 às 22.31h

 

Imagem - Fotografia de Manuel Ribeiro de Pavia desenhando, em nossa casa.

 

In - "Livro de Bordo" (2º edição)

       Publicações Europa-América, 1957

 

 

 

 

 

A ÚLTIMA HOMENAGEM


Maria João Brito de Sousa

16.02.08

 

Faz hoje 27 anos, António de Sousa adormecia, pela última vez, no seu último leito, em Oeiras, na Praceta Gil Vicente em Nova Oeiras. Eram 16.30h.

A sua morte foi largamente noticiada pelos Media.

Aqui ficam as transcrições de algumas palavras póstumas.

"O principal responsável pelo esquecimento em que mergulhou António de Sousa e fez com que as últimas gerações o ignorassem por completo foi ele próprio, ao cortar com tudo e com todos, ao fechar-se em casa a sete chaves, tornando-se inacessível aos amigos, à família e até a si mesmo - verdadeiro "espectro de órbitas vazias, sem estrelas e sem raiva."

Vai para dez anos (ou mais) que abandonou  o escritório da Rua da Misericórdia, desapareceu dos corredores da Boa Hora, atirandõ co a toga para um canto para apodrecer consigo num silêncio amarfanhado de miasmas. E nunca mais o vimos. Nem na esquina da Sá da Costa, nem à mesa da Brasileira, numa roda de tertúlios incorrigíveis. Suponho que também nunca mais abriu a Bíblia com que, nas assembleias evangélicas onde foi pastor, acertava as agulhas do céu e da terra, mas debatendo-se, instante a instante com "aquela pureza feita de pecado" que o levava a exclamar: "Almas e coisas que suam/ sua nudez condenada/ por que me escolhem a mim,/ para eu falar por elas/ para que as diga esta voz/só de palavras quebradas/ como lanças na derrota."

Perdera a mulher. A pouco e pouco os amigos ficavam no cemitério, na viajem sem regresso. Longe, muito longe, na outra margem da vida, "ardia o sol como um berro"

num delírio de luz e de cor, a voz harmoniosa e clara que retenho, na memória dos caminhos andados da sua lira trágica e vadia até que: "Roubaram-me a força/ destes rijos pulsos/ deixaram-me a cinza de uns sonhos avulsos(...) nem homens nem deuses/ me podem valer/ que eu vivo da morte/ mas não sei morrer."

Os pressentimentos dos poetas são, regra geral, confirmados pela evidência dos factos. Por isso eles são os primeiros a ssustar-se com a profética visão que os ilumina.

Homem feito de abismos e de pasmos, António de Sousa encarnava três pessoas distintas numa só verdadeira: era "tripeiro" até à medula, Coimbrão por boémia de espírito e açoriano por fatalidade hereditária. Filho do Prof. Dr. Sousa Júnior, catedrático da faculdade de Medecina do Porto e várias vezes Ministro na Primeira República, recebera de seu pai, não só os exemplos de fidelidade à democracia, como também uma costela de insularidade. O mar que banha os seus versos e inunda os títulos da sua bibliografia poética é muito mais do cais da alfândega de  Angra do Herísmo do que de Leixões ou Matosinhos. "Onda! Quem te mediu a força bruta?/ Que são meus verdes versos no teu seio?"

Nem Coimbra nem o Chiado desnaturalizaram António de Sousa que permaneceu, nos actos e na fonética, fiel a esse Porto do começo do século, mas, no fundo, "antiquíssimo e idêntico" em que já não havia Camilo e Junqueiro mal saía à rua, mas onde Sampaio Bruno e Basílio Teles abancavam em livrarias e farmácias para dialogar com o passado e o presente. Onde Pascoaes enchia de névoas e de escarpas as praças e as ruas da cidade e onde Leonardo Coimbra, seu mestre e seu amigo, continuava as aulas nos cafés, envolvendo os discípulos siderados "na alegria, na dor e na graça" da sua dialética "criacionista". Mas António de Sousa ficou, porventura, mais agarrado a um outro Porto. ao burgo liberal e jacobino, viril e femeeiro, com boa comida e boa bebida, o verde a jorrar em loas dos pipos, com a euforia da festa em que se exalta o sagrado e o profano, em que se tratam por tu os santos populares. "Meu compadre S. João/ das fogueiras, das cantigas,/ficarei par ou parnão/ no jogo das raparigas?"

Coimbra - onde levou mais tempo a cursar direito do que a Guerra de Tróia ou João de Deus - tornou carne o verbo de António Nobre que o habitava desde a adolescência, incutindo-lhe um certo tipo de elegia e de linguagem, um tanto rebuscada e nefelibata, e que a experiência humana e a maturação cultural foram despojando de roupagens circunstanciais e alheias, indo ao encontro das suas próprias raízes. "A voz do homem nunca chega ao fundo/ se do fundo não subir a sua voz."

Mais do que as côdeas de Marnoco que salazar mastigara para impingir nas sebentas de Econonomia e Finanças, mais do que o Dirito Civil de Manuel de Andrade ou a erudição copiosa e fascinante de António Merea, só aproveitou António de Sousa, porventura, da Faculdade de Direito, o convívio de Mário Figueiredo, mas nas tascas da velha Alta ou nas incursões ao Terreiro da Erva. O que verdadeiramente lhe interessava nada tinha a ver com a Universidade, tal como funcionava e se impunha. Era o magistério socrático de Afonso Duarte, a pontificar nos cafés da Baixa ou na casa assombrada da Rua Dr. João Jacinto. Era o intercâmbio cultural com Vitorino Nemésio, José Régio, Gaspar Simões e Miguel Torga, com o grupo da "Presença" que lhe deu carta de navegação e alforria. E, tanto ou mais que a "Presença"  o seu apego a Coimbra prendeu-se às malhas que o fado teceu, entre sustenidos e bemois, de António Menano e Edmundo Bettencourt, para quem escreveu versos que a imaginação e a saudade das gerações encheram de sortilégios e lendas. " Meu destino de estudante/ que hei-de ser por toda a vida/ foi ir passando adiante/ duma Coimbra perdida."

Foi, no fundo, essa Coimbra, não propriamente perdida mas reencontrada, que António de sousa trouxe para Lisboa, para a esquina da Sá da Costa, para a Brasileira do Chiado e para as salas dos tribunais. Cada julgamento em que intervinha se transformava numa serenata a Pilatos, em que se sentia mais o Penedo da Saudade do que o Direito Penal, mais as tranças de água do Mondego do que os normativos e as técnicas do Código do Processo, mais uns versículos da Bíblia do que os Acordãos do Supremo.

Durante anos e anos, nos "cambões" da Boa Hora, António de Sousa exerceu uma advocacia desambiciosa (como uns pratinhos ao balcão do restaurante "Palmeira"), em defesa dos pobres e dos marginais, da "escumalha" maldita dos bairros excêntricos e, quantas vezes, dos que, pelas vicissitudes políticas e sem meios de fortuna, caíram nas engrenagens da PIDE e ficaram, em má hora, enredados na ignomínia dos tristemente célebres plenários, ao arbítrio dos Silva Caldeiras, dos almeida Mouras e dos Morgado Florindos. A estes e a outros que, na "Pena Maior" do "Livro de Bordo" entram no extenso e caótico redondel dos vivos e na babélica e interminável procissão dos defuntos e em que António de Sousa increpa veementemente. "Meu cárcere no ar do teu degredo/ eu deito as mãos às grades que não vejo/ e trago só as mãos menos seguras..."(...) para, depois, implorar com misericórdia: "Meu irmão Judas/ enforcado e perdoado/ roga por mim ao Senhor!"

Duas árvores húmidas e arrepiadas, para além da janela da sala onde escrevo, trazem-me no sol esquivo deste inverno de chuvas sucintas e névoas enxutas, o perfil humano e o arquipélago poético de António de Sousa, meu amigo e amigo de meu pai, há 60 anos, em Coimbra, lado a lado nas páginas da Bysâncio, ambos tu cá, tu lá com António Nobre.

A última vez que o vi e abracei, foi exactamente há dez anos , quando me associei à piedad fraternal de Vitorino Nemésio e do pintor Guilherme Filipe, para lhe dar os bons anos. Já não saía à rua e deixara crescer as barbas que estavam maiores que as do Tomás da Fonseca. Vestia um pijama e tinha aos ombros um sobretudo roto. O desconforto era total. O frio entrava pelas vidraças partidas.

Ainda recordou Coimbra, mas era um Choupal sem músculos. Ainda falou de mulheres mas sem o ímpeto das suas cóleras dionisiacas. Ainda quis recitar uns versos, mas faltavam-lhe astros e relâmpagos e apagavam-se-lhe os sarcasmos hilariantes. Mesmo os que perpassam, com ironia e amargura no: "Desabafo", já antigo: "Fedor de literatura!/ Bibliotecas! Discotecas!/ Filmotecas, Apotecas/ selada a câmara escura/ e à solta o diabo a sete!/ Eu sou um pobre de Cristo/ mas já não posso com isto!". Uma melancolia depressiva vidrava-lhe os olhos e tornava-o distante. Quase tão distante como agora, em que meia dúzia de linhas frias de necrologia e meia dúzia de pás de terra no cemitério de Oeiras, cobriram, para sempre, o seu corpo de silêncio.(...)

In - Diário de Notícias

       24.02.1981

Por- António Valdemar.

.

 

 

 

 

 

 

 

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