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antoniodesousa

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Amigos! Eis aqui o dos olhos de mel! O Poeta!

.MJoão Sousa

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LADAÍNHA


Maria João Brito de Sousa

12.12.08

Hei-de ser, em mãos alheias,

um corpo a deitar à terra,

quando acabar minha guerra.

 

Estrelas, sóis, luas cheias

- meus pobres astros privados -

rüirão nos céus usados.

 

Serão apenas vidrilhos

estas joias do meu sonho;

eu, algum cardo tristonho

 

mais os meus pais, os meus filhos.

(As rosas são proïbidas

nas sepulturas perdidas...)

 

Mas um cardo ainda vive,

e o nada será só nada:

menos que a sombra deitada

num rio que não derive...

 

Esse sabor dos teus lábios

e os meus beijos de amor

serão poeira e bolor.

 

Funda ciência dos sábios

e rectas leis do digesto

hão-de acabar com o resto.

 

Mais-e-menos, menos-mais

- contas correntes contadas

por sôbre as almas pisadas -,

 

vós que pensais que ficais,

e eu, que sei que não fico,

e disso me faço rico,

seremos não-poder-ser

só por sermos o que somos,

numa coisa a apodrecer

apertados como gomos.

 

 

In "O Náufrago Perfeito", Coimbra, 1944

 

 

Imagem retirada da internet

 

 

 

 

 

 

TERRA DE SOMBRA


Maria João Brito de Sousa

29.11.08

No meu coração há um lugar hostil

- uma terra sem nome,

nua

e brava,

onde um vento doido sua e cava

covas de sombra para a lua

e, há trinta anos (ou mais de mil?),

uivo de fome.

 

Há névoas baças  - entre uns penedos ,

cardos e urzes que ninguém come -

que se congelam e se condensam

em pobres limos e humidade...

Ai, vale enfermo de saüdade,

terra sem benção,

a um céu ruivo de ruivos mêdos,

negra de fome!

 

- o teu caminho que seja um vôo,

oh mal-amada! deixa que dome

o seu destino ou que se suma

a mancha torpe de veneno,

o inferno pálido e pequeno,

lá onde o inferno é lôdo e espuma! -

 

na terra de ninguém que  só eu sou,

eu, só, me ganhe ou perca à minha fome.

 

 

In O Náufrago Perfeito", Coimbra, 1944

 

 

Imagem retirada da internet

MEA CULPA


Maria João Brito de Sousa

03.11.08

Versos

- Coisas no ar...

e toda a gente

marcha que marcha em frente,

abrindo as veias a lutar

por uma estrêla que dá norte

à sua vida, até à morte!

 

Versos

- coisas no ar...

A magas luas

subindo, de asas nuas.

- Fumo de sonhos a coar

para outra estrêla, de outro norte,

lá de outra vida e de outra morte...

 

Versos

- minha maneira de rezar

 

 

In "O Náufrago Perfeito", Coimbra, 1944

NINGUÉM


Maria João Brito de Sousa

18.10.08

Quando o caminho sobe, eu adormeço

sôbre o cansaço de não ter andado:

ao luar-de-mim-mesmo me anoiteço,

com este amar de coração parado.

 

Um fim-de-raça foi o meu comêço

e, sem naufrágios, pelo mar coalhado

destes dias que vivo e não mereço,

o meu futuro é feito de passado...

 

Sonho que sonhe fala-me de algêmas

e gastei com as tintas duns poemas

esta côrdo meu sangue já sem côr!

 

Inocente ou culpado (à Sua imagem!),

eu nem sei porque teimo na viagem

duma vida vivida por favor.

 

 

In - "O Náufrago Perfeito" , Coimbra, 1944

 

Desenho de Manuel Ribeiro de Pavia

 

Imagem retirada da internet

FIGURA DE PASSAR


Maria João Brito de Sousa

11.10.08

Paguei o preço da vida

(Quanto?)

não sei a quem nem porquê,

mas sei que fui despedido!...

 

Tanto regaço macio!

Como quisera ficar!

Eu, o momento de um beijo,

a figura de passar...

 

Eu, o gôso de um desejo

e o desepêro mordido,

que vi jantar os felizes

e tôda a minha baixela

são as mãos cheias de vento!

 

In - "O Náufrago Perfeito", Coimbra, 1944

AGUARELA


Maria João Brito de Sousa

09.10.08

Passeavam, sempre moças-e-meninas

- luar nas mãos e um halo de miragem -,

lá na colina verde, entre a folhagem

dum bosque, cheio de águas e boninas.

 

Fêz-se-me em linhas lúcidas e finas,

lá na colina verde, essa viagem,

e colou-se-me à vida aquela imagem

das horas sempre virgens e meninas.

 

Ai, horas! Meus amores de ledo engano

ao desejo de um céu, que fôsse humano

como o consôlo morno de um regaço!

 

Ai, horas! Fogos-fátuos num espelho

onde me fico desmanchado e velho,

neste lasso vai-vem do mesmo espaço...

 

In "O Náufrago Perfeito", Coimbra, 1944

 

Imagem - "Dicotomia" - Aguarela e pena

               Maria joão Brito de Sousa, 2002

EXÍLIO


Maria João Brito de Sousa

06.10.08

 

 

Nua, a minh`alma vinha de paisagens

como noivas, sorrindo nos seus véus.

Eu era um natural filho de Deus,

mas a vida cobriu-me de tatuagens.

 

O meu destino é feito de miragens:

à lua, sei de uns sonhos que são meus,

mas quando a sombra me devora os céus,

queima um fogo sem côr suas imagens!

 

Ai, amar como os outros! (Sem talento,

aberto o coração, as mãos leais,

a sorrir e a chorar de sentimento...)

 

Ter nos braços a paz de um corpo amado

sem este bruxo, este demónio aos ais

a pintar-me de deus crucificado!

 

In- "O Náufrago Perfeito", Coimbra 1944

 

CRÍTICA LITERÁRIA (continuação)


Maria João Brito de Sousa

30.09.08

Esta poesia define bem a maneira poética de António de Sousa. Não há nela expressão directa do sentimento ou da intenção a que alude. Sôbre uma emoção - a emoção do envelhecer - construiu ele esta metáfora, aparentemente inexistente graças à integração imediata na sua expressão transposta ou alusiva. Intelectual, dizia, de um intelectualismo que força as emoções a serem consciência antes de serem emoções, o poeta de "O Náufrago Perfeito" tinha de pertencer à linhagem dos nossos poetas metafóricos. Na verdade até em Camões é difícil, por vezes, encontrar a analogia entre o poema e o seu significado lógico. Há versos seus que são enigmas. Porém não carecem de ser decifrados graças à beleza que em si mesmo possuem. Para sentirmos a majestade da Esfinge, não precisamos de conhecer o segredo que ela esconde.  (continua)

 

In - "Diário de Lisbôa" , 21.2.1945  (artigo de João Gaspar Simões)

HISTÓRIA NATURAL


Maria João Brito de Sousa

22.09.08

 

 

Começou-se num ventre de mulher:

(Sempre uma vida nova é como um roubo...)

Foi menino e poeta e sempre lôbo!

 

Um chôro de mulher dói no seu riso:

Pelas suas traições e seus pecados

só beijos e perdões lhe foram dados.

 

Credo (se o tem...) é um sonho de mulher:

a mal-amada que lhe disse o amor:

- Ama!

Até a morte e a dor!

Maior será o que melhor se der!

 

(Ah, meu Deus, não apagues esta chama!

E venha o que vier!)

 

 

In - "O Náufrago Perfeito", Coimbra, 1944

COMUNICADO


Maria João Brito de Sousa

19.09.08

Olhando a paz do rio,

A guerra descansou,

sem fôlego, três dias.

Depois o vento que a trouxe

como uma foice a levou!

 

Houve luar - um véu

para o pudor dos astros;

uma esquadrilha em vôo

e três cruzes de rastos.

 

Metálicos milhafres,

as máquinas abriram

longas feridas no céu,

e no céu se sumiram...

 

Onde parara a Bêsta,

a descansar, três dias,

silêncio só ficou,

o véu celeste e as cruzes

por chaves de agonias.

 

Uns mortos que outros mortos enterraram,

sem padres, sem eças,

sem rezas, sem luzes,

tôscas, três cruzes os fecharam

à beira dum rio.

 

(Assim mesmo, o lôbo

que somos nós-todos

e que ninguém é,

irá farejá-los pé-ante-pé,

e uivar à lua por desfastio!...)

 

In - "O Náufrago Perfeito"

       Coimbra, 1944

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