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.MJoão Sousa

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Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008
LADAÍNHA

Hei-de ser, em mãos alheias,

um corpo a deitar à terra,

quando acabar minha guerra.

 

Estrelas, sóis, luas cheias

- meus pobres astros privados -

rüirão nos céus usados.

 

Serão apenas vidrilhos

estas joias do meu sonho;

eu, algum cardo tristonho

 

mais os meus pais, os meus filhos.

(As rosas são proïbidas

nas sepulturas perdidas...)

 

Mas um cardo ainda vive,

e o nada será só nada:

menos que a sombra deitada

num rio que não derive...

 

Esse sabor dos teus lábios

e os meus beijos de amor

serão poeira e bolor.

 

Funda ciência dos sábios

e rectas leis do digesto

hão-de acabar com o resto.

 

Mais-e-menos, menos-mais

- contas correntes contadas

por sôbre as almas pisadas -,

 

vós que pensais que ficais,

e eu, que sei que não fico,

e disso me faço rico,

seremos não-poder-ser

só por sermos o que somos,

numa coisa a apodrecer

apertados como gomos.

 

 

In "O Náufrago Perfeito", Coimbra, 1944

 

 

Imagem retirada da internet

 

 

 

 

 

 


sinto-me:

publicado por poetaporkedeusker às 23:37
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Sábado, 29 de Novembro de 2008
TERRA DE SOMBRA

No meu coração há um lugar hostil

- uma terra sem nome,

nua

e brava,

onde um vento doido sua e cava

covas de sombra para a lua

e, há trinta anos (ou mais de mil?),

uivo de fome.

 

Há névoas baças  - entre uns penedos ,

cardos e urzes que ninguém come -

que se congelam e se condensam

em pobres limos e humidade...

Ai, vale enfermo de saüdade,

terra sem benção,

a um céu ruivo de ruivos mêdos,

negra de fome!

 

- o teu caminho que seja um vôo,

oh mal-amada! deixa que dome

o seu destino ou que se suma

a mancha torpe de veneno,

o inferno pálido e pequeno,

lá onde o inferno é lôdo e espuma! -

 

na terra de ninguém que  só eu sou,

eu, só, me ganhe ou perca à minha fome.

 

 

In O Náufrago Perfeito", Coimbra, 1944

 

 

Imagem retirada da internet


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publicado por poetaporkedeusker às 23:33
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Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008
MEA CULPA

Versos

- Coisas no ar...

e toda a gente

marcha que marcha em frente,

abrindo as veias a lutar

por uma estrêla que dá norte

à sua vida, até à morte!

 

Versos

- coisas no ar...

A magas luas

subindo, de asas nuas.

- Fumo de sonhos a coar

para outra estrêla, de outro norte,

lá de outra vida e de outra morte...

 

Versos

- minha maneira de rezar

 

 

In "O Náufrago Perfeito", Coimbra, 1944


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publicado por poetaporkedeusker às 22:34
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Sábado, 18 de Outubro de 2008
NINGUÉM

Quando o caminho sobe, eu adormeço

sôbre o cansaço de não ter andado:

ao luar-de-mim-mesmo me anoiteço,

com este amar de coração parado.

 

Um fim-de-raça foi o meu comêço

e, sem naufrágios, pelo mar coalhado

destes dias que vivo e não mereço,

o meu futuro é feito de passado...

 

Sonho que sonhe fala-me de algêmas

e gastei com as tintas duns poemas

esta côrdo meu sangue já sem côr!

 

Inocente ou culpado (à Sua imagem!),

eu nem sei porque teimo na viagem

duma vida vivida por favor.

 

 

In - "O Náufrago Perfeito" , Coimbra, 1944

 

Desenho de Manuel Ribeiro de Pavia

 

Imagem retirada da internet


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publicado por poetaporkedeusker às 14:06
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Sábado, 11 de Outubro de 2008
FIGURA DE PASSAR

Paguei o preço da vida

(Quanto?)

não sei a quem nem porquê,

mas sei que fui despedido!...

 

Tanto regaço macio!

Como quisera ficar!

Eu, o momento de um beijo,

a figura de passar...

 

Eu, o gôso de um desejo

e o desepêro mordido,

que vi jantar os felizes

e tôda a minha baixela

são as mãos cheias de vento!

 

In - "O Náufrago Perfeito", Coimbra, 1944


sinto-me: sem imagens!!!

publicado por poetaporkedeusker às 17:30
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