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antoniodesousa

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Amigos! Eis aqui o dos olhos de mel! O Poeta!

.MJoão Sousa

Cria o teu cartão de visita

GRANDE MERGULHO


Maria João Brito de Sousa

18.02.10

 

No fundo do mar,

no fundo, no fundo

dum mar que não é

nem do céu

nem do mundo,

nas velhas areias

entre algas em feixes,

conchinhas, moluscos,

luzentes escamas

de meigas sereias

e rápidas flamas

do arco-íris dos peixes,

a chave lá está.

 

Quem desce a buscá-la?

Cem anos, mil anos,

mil anos e um dia,

alguém que tecia

a mística rede

com sonhos humanos,

naufrágios e sede,

martírios e crimes,

geométricos gritos

e poemas sublimes,

bordões de viola

e nós de infinitos,

num pronto apanhou-a!

 

Se chega cá acima;

ao Cabo ou ao Polo,

ao Havre ou ao Goa

ou mesmo a Lisboa!...

 

Mas, longa, a subida,

mais longa, demora

a conta sabida:

A hora por hora

é sempre uma vida.

 

 

In "Sete Luas", Lisboa, 1954

 

Imagem retirada da internet

 

 

 

VÔO NOCTURNO


Maria João Brito de Sousa

09.02.10

 

LUA!

toda branca, a tremer no céu profundo

inquieta e nua

ao vento zoado dos confins do mundo!

 

Violino que só tem o som agudo,

o teu luar é médium, arrepia.

Nele vem tudo a mim e eu sou em tudo

como no instante imenso da agonia.

 

Oh noite-plena das saudades mortas

e pávidos espantos!

- Sou os abraços para lá das portas

e os mendigos gemendo pelos cantos.

 

Sou os gordos senhores a ruminar4,

junto do lume, astutas ladroeiras

e as almas penadas a bailar

sobre as pedras das eiras.

 

Sou de jóias, bordéis, cinemas, automóveis,

egoísmos e histéricas vaidades

e velhas torres imóveis

que falaram de Deus noutras idades.

 

Impo de charlatães, batendo a mão no peito,

que dão a quem der mais

velhas mézinhas de seguro efeito

contra pecados simples e mortais.

 

Nasço com esses que hão-de herdar a terra

onde só temos, de certeza, a cova.

Sou os que aprendem - vão partir prá guerra!-

uma cantiga nova.

 

Famintos cães uivando

nos descampados,

sou os que traçam versos, delirando,

cheios de frio, inúteis, desgraçados.

 

Queimo o incenso das preces que não9 passa

as nuvens do segredo

e sou os que andam à divina graça

no meu degredo.

 

In "Sete Luas", 2ª edição, Lisboa 1954

 

Imagem retirada da internet

 

 

 

Este blog está a ser publicado por Maria João Brito de Sousa

que, a partir de hoje, estará também em http://www.avspe.eti.br/

 

http://www.avspe.eti.br/biografia2010/MariaJoaoBritodeSousa.htm

LENDA DO PATO BRAVO


Maria João Brito de Sousa

28.01.10

 

Pato bravo.jpg

 

Voa no céu

- tão alto! -

um pato bravo

e a onda do seu grito

rola no sangue vivo do poente:

 

"Suam-me versos estas noites velhas

que me descem dos olhos,

lá do fundo,

onde é, talvez, o coração que vê.

 

Digo ao que vem á frente dessas horas.

- aqui viver ou morrer,

mas devagar!

E grito o meu orgulho a sete luas mortas...

 

Depois, gran-duque e senhor

e rei de um reino de pedir às portas,

choro

e esmolo o pão de vida

aos que de vida  vão fartos.

 

E peço o amor a algum beijo

gasto, cansado, caído,

que ia a destino e me bateu na boca.

 

- Há por aí farrapo pra vender?

 

Sou o dos olhos de mel...

Sou o menino dos luares doridos

que esteve nove meses de joelhos

a rezar o seu medo de nascer."

 

Voa no céu,

tão alto,

um pato bravo,

agora, no silêncio

do deserto e das almas que se fecham.

 

O vento servo dos deuses,

certeiro o gume da faca,

mete-lhe o vôo entre fatias de ar:

um "hors d`oeuvre" de apetite

para os papões demiurgos

dos caminhos para SER.

 

- Pronto! Passou!

Prossiga esse banquete!

 

O guisado de sóis vem para a mesa.

Continua o roer da Eternidade.

 

António de Sousa

 

 

In "Sete Luas",  Editorial Inquérito

Lisboa, 1954.

ESCONJURO


Maria João Brito de Sousa

14.01.10

BEM sei!

- É só estender a mão,

dizer amén, e sou rei!

[tenho talento que sobre

e um sangue no coração

que não é azul mas é nobre.]

 

Dizer amén

e acudir na hora H.

[a um homem não fica bem

andar de cá para lá,

e a gente vale o que tem

pelo que dá.]

 

Tenho talento!

Quando penso é sempre em verso:

sou um poço de sentimento!

Mas ficou-me desde o berço

este receio do incerto...

Herói, sim! mas encoberto...

 

- E o céu?

- O céu que eu entendo

[e quem diabo mo deu?]

são uns lábios de mulher

e uma mentira qualquer

que me dão e a que me rendo.

 

Dividido,

porque procuro um sentido

e pergunto a toda a gente:

- É a vida que me mente

ou eu que estou impedido

de ser verdadeiramente?

 

Na perdição que me guia,

inquieta, vaga, distante,

a verde luz da alegria

vem e vai... passa adiante...

beija-me os olhos, às vezes,

para lá dos meus revezes.

 

E ainda rezo

e tateio como um cego,

aquela noite sem nome

- noite que temo e que nego! -

do medo que me tem preso.

E espero.

 

Espero,

não a riqueza do mundo,

nem a glória, que não quero,

nem essa voz do Profundo

que é sonho e arte e beleza!

Eu espero outra certeza:

encontrar-me! SER, enfim,

aquilo para que vim

a este mundo, senhores!

Ser eu sem esta saudade,

sem incertezas nem dores:

ter-me todo em liberdade!

 

 

In "Sete Luas", 1954

PENITÊNCIA


Maria João Brito de Sousa

13.01.10

Este viver de líricas fragrâncias

faz-me corar,

lá, onde a minha alma é toda-a-gente

como Deus manda.

 

Nas pálpebras a lágrima - o aljôfar,

como se diz no bem falar romântico;

dentro, a secura nua e crua dos desertos

onde não há sombra nem pão.

 

Ponho a minha casaca de cometas,

a ígnea farda de falar às musas,

e olho os esfarrapados

com literária piedade e o coração calado.

 

Caridade, perdão; Rainhas Santas

de palavras a passar na procissão das frases

e, se me tocam na pele,

fecho-me rápido como os dedos no cabo de um punhal.

 

Assim, estar assim, dói!

(neste doer de pôr em rezas...)

- Vamos! Quero o caminho de Estar para Ser;

talvez esta hora traga a da feliz viagem!

 

Esta hora!... a minha última descoberta:

terra fiel de paraíso ou horta?

Se vem chuva do céu, no céu me espero?

Se há água só nos poços, sobe ou desço?

 

Triste Vasco da Gama

no Mar das Trevas das perguntas velhas,

gastas, regastas, roídas

como cachimbos em segunda mão!

 

Ai, um pouco do travo do Eclesiastes!

- Vanitas vanitatum! (em latim

estas coisas ressoam bem melhor...)

enfim! Rei ou Poeta - figura de passar.

 

Confesso: não me confesso

para que me cuspam filosofias e saberes.

Quero a certeza de abraçar irmãos

para ser e sermos antes que a morte venha!

 

Quero o que negue em nós

o animal raivoso, a besta impura;

mas não quero o pecado de não ter pecados

enquanto houver pecadores.

 

 

In "Sete Luas", Lisboa, 1954 - 2ª edição

 

 

Imagem retirada da internet

OS "ACASOS" DA BLOGOSFERA


Maria João Brito de Sousa

07.01.10

 

 

 

 
 
A UM POETA-SENHOR
 
-Miguel de Sousa Azevedo

Soube um dia, há idos anos,
que uma Alma, nortenha e fugidia,
tinha em tempos passado
p'la "Presença", onde tantos
dedos célebres, de acérrimos
defensores de direitos e poder,
pintaram as letras da cor-do-Mundo.

Certa noite, em Descoberta,
mergulhei, em "Livro de Bordo",
num mundo de sonetos e rimas,
cujas paragens ou
simples cais de descanso,
cujas mensagens ou
simples marés em balanço,
me fizeram por vezes
tremer, em nome dos
Cabos das Descobertas que
em mim já tinha feito.

Lembro então uma visita,
ao quarto ano de vida,
e que o escuro da memória
só deixa passar em imagem,
em que a Forte figura lá estava,
um tanto acabada,
mas bela, imponente e barbada,
pela cintura, e em mim
subiu ao coração
Linhas e letras de folhas,
amarelas pelo tempo, li e reli
desde então
Um forte impulso de querer
virar o tempo é a linha
constante e a fusão
Do amor pelos outros com a

incompreensão...
o reconhecimento das obras,
não é nunca, por si só,
o verdadeiro indício
daquilo que um Homem vale.
Vou querer-te sempre, como foste
Tio António de Portucale

Porto, 26-OUT-1998

(Este Poema escrevi-o em lembrança do meu Tio-Avô materno António de Sousa. Um dos Homens da "Presença" e um dos menos lembrados geniais poetas deste país...)

 

--
www.portodaspipas.blogs.sapo.pt

www.formularali.wordpress.com

www.twitter.com/portodaspipas

 

UM POETA QUE NASCEU NO DIA DE NATAL


Maria João Brito de Sousa

25.12.09

 

 

 

 

 

A ILHA DE SAM NUNCA

 

 

ESBOÇO IMPRESSIONISTA DO PERFIL DO POETA

 

 

Os traços biográficos quando articulados por mero interesse informativo, como se impõe em obra não isenta da preocupação didática de dar a conhecer um poeta que se fez esquecer, enfermam inexoravelmente de secura. Mas desapreço seria pela cálida humanidade de um homem que em tudo a fazia esfuziar, transcrever-lhe a biografia num inexpressivo registo curricular; pelo que, da lavra da minha afectuosa relação com o poeta, retiro um breve punhado de memórias que aquecem, como lhe é devido, o seu ser e estar de nababo de sonhos com as mãos a abanar.

Descrevo-o tal como oconheci entre a Sá da Costa e a bertrand no desafogo tertuleiro da indignação selada pela censura em que o pontificado dos Aquilinos e Sérgios embasbacavam os jovens. Eu, então muito moça e António de Sousa já entrado nos cinquenta era uma aparição abstrusa naquela tábua de valores falantes em que o magistério do político, do literário e do filosófico triangulava o nosso anseio por mudar as coisas. Logo no físico taurino bandarilhado por fantasias se lhe estampava a extravagância de um matulão basquetebolista desmazelado por uma alma famélica de estrelas. Vinha da Boa Hora, onde, ali para os fundos do Chiado, se reproduziam as comicidades e desesperos que Fialho de Almeida saboreou numa das suas pasquinadas. E aí, era v^ªe-lo, como o surpreendi no temeroso Palácio da Justiça onde, no papel de testemunha me achei, menina entre bruxas de beca, com a toga a adejar entre rufiagem e mulherio de saracoteio público e guincharia de venda ambulante clandestina. Era esta a clientela do cambão compassivo desse causídico desastrado para angariar causas proveitosas.

O contrastante emanava dele com uma candura comovente. A tricana e o fado de Coimbra para o qual enluarou trovas garganteadas por António Menano e Edmundo de Bettencourt, tinham-se-lhe pegado ao peito.

Mas por entre os relâmpagos da boémia pastoreava almas evangelicamente, em devota função que lhe cumpria como Secretário Geral da Young Men`s Christian Association fundada por Evangélicos Americanos. Este misticismo que nada tinha de beatério, apimentado por apetites carnais que lhe vinham ao lume dos olhos, casavam-se com uma inocência poética que, orvalhando as sentenças dos papas das tertúlias, era rocio mais calhado à frescura dos meus anos e à atracção pelo insólito com que me espicaçava o duende dos versos.

António Sérgio que era severo por disciplinada introversão de veemências românticas, não tinha paciência para o brincalhotar erótico de António de Sousa que arregalava o olho quando quando a beleza com saias lhe passava ao pé. E algumas vezes tive de interceder junto do Mestre que, pela minha militância cooperativista me prezava, para que aceitasse aquele gosto de tricana e serenata que, nos adiantados anos do poeta, continuava a piscar o olho ao que de femenininamente belo e emocionante viesse. saí-me mal da empresa, com infantil amargura do poeta que não compreendia aquelas lufadas de mau génio com que sérgio lhe bufava o nome de velho sátiro. o falhanço dos meus bons ofícios em nada toldou a devoção que me ligava ao mestrado e à altura de António Sérgio. Mas, aqui o confesso pela primeira vez, tomando eu em meu íntimo o partido do poeta, tal opção apressou-me os passos para climas mentais poeticamente mais respiráveis aos pulmões da minha sensibilidade do que a ratio ideológica falha de humor que a poesia prega à razão.

Ao transmitir estas breves impressões que guardo do meu convívio com antónio de Sousa mais não pretendo do que credenciar a autenticidade da sua poesia com o comportamento do homem e do seu discurso poético.

Um insulado pela fantasia lunar irremediavelmente praticada num coexistir que a marginaliza. Só que antónio de Sousa não dava por isso na sua candura de menino perpétuo a pedir a lua. A brincar a Robinson Crusoé da Ilha Deserta onde é possível recomeçar o mundo com as mãos imaculadas. Assim me apareceu. Assim o li nos versos que escreveu, nas ondas que perfeitamente naufragou para adquirir a pureza de sonhar sem a grilheta dos êxitos que atam os triunfantes ao compromisso de serem esplêndidos.

 

 

                                                      Natália Correia

 

 

In A ILHA DE SAM NUNCA

 

Atlantismo e Insularidade na Poesia de António de Sousa

 

 

Imagem - António de Sousa e Alice Brito de Sousa

 

 

 

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